domingo, 25 de janeiro de 2026

SEIS HISTÓRIAS PARALELAS

 


Em Seis Histórias Paralelas (Companhia das Ilhas, Setembro de 2023), Nuno Dempster (1944-2026) ocupou-se das sobras de uma ruralidade que já não merece olhares contemplativos. Seja através da enjeitada de Vasconha, nome de aldeia no sopé da Serra do Caramulo, seja através das visões em Nave dos Sobreiros, nome de aldeia desconhecida, as seis histórias introduzidas por epígrafes de Plutarco (duas), Catulo, Homero, Ovídio e Sófocles, não opõem os vícios da vida urbana às virtudes da ruralidade, antes preferem abordar esta a partir de um prisma crítico que vai muito melhor com a mudança dos tempos. Agradou-me particularmente O Caminho, uma história de vindima com os explorados da imigração em pano de fundo. A vida no campo está longe de ser um paraíso e tanto os vícios como as virtudes são humanos, não escolhem geografias.

TODOS CONTRA MIM, DIZ O BULLY

 


Ventura acha que está no caminho certo porque estão todos contra ele. Na verdade, não estão todos contra ele. Mais de 1 milhão de palermas votaram nele. Ele próprio, nas eleições anteriores em que foi candidato, todas e mais algumas, tem vindo a gabar-se de arrasar com este e com aquele porque os portugueses estão do seu lado. Ora, há nesta lógica propagandística uma contradição que não é de admirar. Ventura diz e desdiz a cada hora que passa. O que me parece interessante, desde já, sublinhar é a importância de estarmos todos contra as pragas de ratos, independentemente do caminho que elas sigam. O discurso dos estão todos contra mim é ainda interessante por vir de um bully que passa a vida a estar contra tudo e todos, nomeadamente o PSD e PS, que ele faz equivaler em cartazes sobre corrupção, ou os ciganos, assim generalizados como se no interior da comunidade não houvesse tanta gente diferente. Ventura está constantemente a pôr-se no centro do mundo, as televisões ajudam. Também por isto é tão importante ir votar contra ele, para que finalmente ele perceba que os que estão com ele não são assim tantos como ele apregoa. O que está em causa nas próximas eleições não é a direita versus a esquerda, é indecência versus a decência, não é o socialismo versus as democracias liberais, é o respeito pela Constituição da República versus o desrespeito por uma Constituição que se pretende mudar para favorecer elites contra os direitos de todos, o que está em causa não é 52 anos de corrupção versus três Salazares para acabar com a mama, é a possibilidade de o país continuar a progredir versus um cheque em branco aos pardais das mamadas.

sábado, 24 de janeiro de 2026

50 x 39

 



"25": Lokomotiv

Há algo comum a todos estes CDs, a guitarra de Mário Delgado. E só num deles não escutamos o contrabaixo de Carlos Barreto, substituído pela tuba de Sérgio Carolino no excelente TGB III (2018). Fui ouver os Lokomotiv a A-da-Gorda na passada sexta-feira, num suposto armazém dos vinhos onde ficámos a seco. Não havia vinho. Belíssimo concerto, celebrando 25 anos de trio (Carlos Barreto, Mário Delgado e José Salgueiro), agora em formato quarteto (Ricardo Toscano no saco alto). São ambientes sonoros dissemelhantes, aqueles que encontramos nestas cinco gravações. Na versão Suite da Terra nota-se a influência das chamadas músicas do mundo, que é como quem diz música enraizada nas tradições mais ancestrais. Os títulos dão conta das diferentes geografias: Terra do N’gumbé, Let’s Goa, Mediterrâneando. Em Filactera, quarteto liderado por Mário Delgado, o mote são as “histórias aos quadradinhos”. Além de Carlos Barreto no contrabaixo e de Alexandre Frazão na bateria, tocam o polaco Andrzej Olejniczak no saxofone tenor e soprano, e Claus Nymark no trombone. O que me agrada nestes músicos, de que a guitarra de Delgado é aqui uma constante, tem que ver com a multiculturalidade oferecida através de uma música que, tendo a sua identidade própria e singular, resulta sempre de encontros com o diverso e da assimilação do que melhor podemos colher nas mais diversas manifestações musicais. Não há nenhuma ditadura estética capaz de usurpar a Terra de Ninguém (de Carlos Barreto) a sua extraordinária beleza ecuménica, devedora tanto das tais músicas do mundo, como do rock... e isso é jazz. Acho que devemos muito a estes músicos. Eu faço a minha parte, vou aos concertos, compro os CDs, escrevo estas coisitas.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

TUMBA LAKA MUNA KIRA TÁKA PIRÍ

 
Lokomotiv, A-da-Gorda. Na Grécia Antiga já havia quem se queixasse da juventude, já havia quem olhasse para o passado com nostalgia, já havia quem projectasse o apocalipse no futuro. Mas o apocalipse tem vindo a ser protelado. Aqui estamos, 4000 anos passados sobre as placas de barro do Épico de Gilgameš, a queixarmo-nos descontinuadamente da juventude, a olhar com nostalgia para o passado e a adivinhar o fim do mundo num horizonte próximo.

JE SUIS VOLKSVARGAS

 
Leitão Amaro, naquele jeito de falar como quem olha para o chão a ver se não tropeça nos próprios pés, veio justificar a queixa de Montenegro contra um post satírico alegando questões de defesa nacional: «É defender Portugal e a posição de Portugal, quem faz isto não ataca só o primeiro-ministro, ataca a posição internacional de Portugal». O leitãozinho disse isto sem se rir, pelo que acreditamos estar a falar a sério. Não sei se viram o post em causa, uma brincadeira em que Trump agradeceria a Montenegro por este lhe propor as ilhas dos Açores entre outros disparates congéneres. O que ali está em causa, claramente, é uma satirização da reverência portuguesa à política norte-americana. Ora, tanto o anjo Montenegro, como o anjo Amaro, levaram-se a sério a ponto de nem sequer lhes passar pela cabeça estar Donald Trump a cagar-se para eles e para Portugal, enquanto divulga nas suas redes sociais vídeos produzidos por inteligência artificial (não tem outra) e propaga todo o tipo de mentiras e dislates. Chegámos a este ponto em que os verdadeiros sátiros são aqueles que outrora inspiravam a pena dos poetas, ou seja, os homens de e no poder. Ao pé de Montenegro e Leitão Amaro, o Volksvargas parece um respeitável cientista político. Ao pé do Volksvargas, o Amaro parece um leitão e o Montenegro dá ares de Palhaço Batatinha.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

DESCONCERTO DO MUNDO

 
Sá de Miranda já falava do desconcerto do mundo, Camões aprofundou o desconcerto do mundo, Vieira sentiu na pele o desconcerto do mundo, Nicolau Tolentino denunciou em versos autocomplacentes o desconcerto do mundo, o desconcerto do mundo persegue-nos. Do renascimento ao barroco, da arcádia lusitana ao romantismo, do modernismo ao surrealismo, passando pelo neo-realismo e demais ismos, sempre o desconcerto do mundo, sempre esta sensação de injustiça, de premiação do mal e desprezo do bem. Ainda hoje, o desconcerto do mundo. Uma guilhotina suspensa por fios débeis sobre as nossas consciências.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

RELÓGIO ATRASADO

 
O cansaço manteve-me em casa a arrumar livros e ideias. Fomos sempre, enquanto nação, produto de influência estrangeira. Não há um verdadeiro e autêntico, genuíno pensamento português. O relógio atrasado pela Inquisição, como denunciou o Cavaleiro de Oliveira, e, posteriormente, pelo Estado Novo. Só com os estrangeirados conseguimos, a espaços, olhar-nos de fora e, a pouco e pouco, aproveitar esse olhar para um exercício de autocrítica que nunca nos libertou por completo das coleiras que nos levam a reboque. Alguma emancipação a partir da segunda metade do século XX, talvez, mas tudo como um fogo-fátuo. Agora, com a inteligência natural rendida à inteligência artificial, talvez consigamos finalmente ver-nos ao espelho e repensarmo-nos pelo mal e pelo bem que fizemos.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

MOMENTOS

 

Nunca pensei que isto fosse durar tanto. 8 anos passados, são breves e escassos os momentos colados à memória, a despeito das inúmeras horas despendidas a preparar conversas e a materializá-las. Há gente que nos fica na memória pelo que pede à mesa, por um gesto, por uma palavra, outros há que nos oferecem momentos inesperados com os quais alimentamos a vontade de continuar. Ultimamente têm-me ocorrido, em particular, os lapsos, as falhas, as ocasiões confrangedoras, momentos que envergonham e preferiríamos recalcar tivéssemos esse poder. Chego a sonhar com esses momentos, atormentam-me. Arrependo-me de os ter vivido de me arrepender de os ter vivido. Afinal, são meros instantes que de nada valerão dentro em breve.  

O GORDO

 
A operação em curso sobre o grupo neonazi 1143 pode levar a consequências inesperadas, dado o interesse já detectado sobre a data escolhida pelos trogloditas para se reunirem a fazer coisas lá do interesse deles. Se os wokistas de serviço começam a meter os olhos na História de Portugal, ainda vão descobrir que temos um rei vítima de body shaming: D. Afonso II, cognome O Gordo. O que será então de nós?

BUKOWSKI E O CINEMA

 


- De todos os filmes que já viu até hoje, qual considera ser o melhor?
-
No Céu Tudo é Perfeito.
-
No Céu Tudo é Perfeito?
- Sim.
- E em segundo lugar?
-
Quem Tem Medo de Virginia Woolf?
 
Charles Bukowski, in "Hollywood", trad. de Alice Rocha, Alfaguara, Setembro de 2012, p. 334.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

LEMA DE VIDA

 
Tenta encontrar virtudes nos vícios sem fazer dos vícios virtudes. É uma forma de actualizar o que Yourcenar meteu na boca de Adriano e há muito, muito tempo, tomámos como lema de vida: «O nosso grande erro é querer encontrar em cada um, em especial, as virtudes que ele não tem e desinteressarmo-nos de cultivar as que ele possui.» Aconteça o que acontecer, por mais porrada que leve, não abdicarei deste princípio. Eu sou isto.

DIZ-ME COM QUEM ANDAS...

 
André Ventura foi condenado por segregação racial, André Ventura não respeita a Constituição da República Portuguesa, André Ventura é um político incendiário que dissemina ódio nas redes sociais, André Ventura é líder de um partido político fundado sobre ilegalidades várias, no seio do qual, em meros 7 anos, têm emergido inúmeros casos de corrupção, desde gente que rouba malas em aeroportos a pedófilos, André Ventura é um cata-vento que desmente à tarde o que diz de manhã, André Ventura é o político português com mais mentiras e aldrabices proferidas na comunicação social, André Ventura não sabe estar na vida pública sem ser a ofender terceiros, André Ventura tem as piores companhias internacionais, líderes da extrema-direita fascista, populistas oportunistas, gangues neonazis, André Ventura venera o ditador Salazar... Podíamos continuar, mas não vale a pena. Quando, perante este desfile de factos, o Cotrim, o Almirante, o Marques Mendes e Montenegro não tomam posições claras, fica evidente quem está e quem não está na política por amor à democracia. Vão ficar todos com as mãos sujas da porcaria chegana e a culpa não é senão dos próprios.

domingo, 18 de janeiro de 2026

DESASTRE À VISTA

 
Olhando para os resultados nacionais, concluímos que a abstenção cresceu face às últimas legislativas. Mais de 5 milhões de eleitores não foram votar. Isto, do meu ponto de vista, continua a ser preocupante. Da mesma forma, embora mais compreensível, também nos devem preocupar 65381 votos nulos e 61226 em branco. Muito menos, curiosamente, do que nas últimas legislativas, que só em nulos somou 172 379 votos. O boletim de voto destas presidenciais vai ficar para a história como mais uma vergonha nacional. Não se percebe, por mais voltas que se dê, a inclusão de três candidaturas recusadas. Dito isto:
Estrondosa vitória de António José Seguro contra todas as expectativas iniciais. O país abrilista, democrático, concentrou-se o mais possível na sua pessoa contra hipóteses que seriam catastróficas. Sofreram, com isto, outras candidaturas de esquerda que, a bem dizer, foram apenas propaganda partidária.
O estrondo da vitória de Seguro equivale ao estrondo das derrotas do Almirante e Marques Mendes, dados desde cedo como favoritos. O candidato da SIC esteve longe de repetir a façanha de Marcelo, após anos a fio de publicidade televisiva. São os grandes derrotados da noite e teriam tudo a ganhar com o anúncio do apoio a Seguro na segunda volta. Não lhes pode ser indiferente a decência versus a indecência.
Ventrulha teve sozinho menos 111 237 votos do que o Chega nas últimas legislativas. Bem pode cantar de galo, os números não metem: ficou longe de passar à segunda volta em primeiro, contra inúmeras sondagens que apontavam nesse sentido, e perdeu votos face às últimas legislativas, o que no seu caso é especialmente relevante: é líder do partido, tem uma candidatura fortemente partidarizada.
Por fim, o caso Cotrim. Depois de tudo o que se passou, 902 564 pessoas votaram nesta criatura que mostrou não saber onde tem a cabeça. Quase um milhão de portugueses não se importava de o ter como Presidente da República. Isto é desastroso.

TRANSFORMAR EM QUÊ?

 
A necessidade de transformação do mundo, tal como Brecht a coloca no domínio do Teatro Épico, não me seduz particularmente, desde logo por não vislumbrar nela algo de verdadeiramente inovador. Também aqui, parece-me, foi o dramaturgo mais consequência do seu tempo do que impulsão de ruptura. Modificar e transformar, pois bem. Mas em quê? Tenho sérias dúvidas quanto ao poder transformador da arte, mas mais do que modificar ou transformar importa decidir quem e o quê. Não vale a pena pressupor capacidades transformadoras na criação artista, se for para transformar em algo pior. E aqui talvez devamos supor um tipo de avaliação que faça coincidir o estético com o ético. Os artistas, os criadores, estão imersos num tempo que é o seu. A história dos movimentos, o modo como se foram negando uns aos outros, ou, pelo menos, impondo, não é muito diferente da dinâmica epistemológica dos paradigmas. Mais importante, creio, é a arte estar permanentemente em crise, recusar a cristalização de todo e qualquer paradigma, conflituando com o seu tempo sem se fechar ou isolar num qualquer reduto antissocial. O que mais se observa é uma criação fechada sobre si mesma, individualizada, elitista como desde as raízes mais profundas, do mecenato à subsidiação, o que mais se observa é uma criação transformada em modo de ganhar a vida, em vez de a transformar, à vida, à daquele que cria e dos que frequentam o seu círculo, geralmente mais e mais e mais criadores, e à daqueles que se aventurem no desconhecido, já tão poucos, já tão pouco disponíveis para serem transformados, já tão formatados pela família, pela escola, já tão uniformizados pelas dinâmicas capitalistas, pelos discursos sedutores da publicidade, pelas modas, pelas tendências.

sábado, 17 de janeiro de 2026

IMAGINEMOS

 


Suponhamos a pergunta: «Como se pode imaginar o que não existe?» A resposta parece ser: «Se o fazemos, imaginamos combinações não existentes de elementos existentes». 

(...)

Imaginem um homem cujas memórias nos dias pares da sua vida incluíssem todos os conhecimentos de todos os dias pares, omitindo completamente o que tinha acontecido nos dias ímpares. Por outro lado, ele lembra-se num dia ímpar do que aconteceu em dias ímpares anteriores, mas a sua memória omite, nesse caso, os dias pares, sem qualquer sensação de descontinuidade.

(...)

Imaginem uma linguagem em que, em vez de «não encontrei ninguém no quarto», se dissesse «encontrei o Sr. Ninguém no quarto». 

Ludwig Wittgenstein, in O Livro Azul, trad. Jorge Mendes, Edições 70, 1992.

DIA DE REFLEXÃO

 
O que significa sentido? Qual é o sentido de significar? Qual é o significado de significar? Haverá um significante de sentido? E de significado? Qual é o sentido do significante? Qual é o sentido do significado? O sentido sente? O significante sente? Sentir significa significar? É possível sentir o significante do significado de sentido? Enfim, estou a tentar dar bom uso ao meu dia de reflexão.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

HOMO ERECTUS SOB RUÍNAS

 

Escrevo a dezoito sobre o dezassete para publicar a dezasseis. É uma das vantagens da tecnologia, podemos andar para trás no tempo, apagar memórias, pôr em prática a imaginação segundo Ludwig Wittgenstein. Apercebo-me, por exemplo, de falhas na memória que não creio selectivas. Apago rapidamente nomes, fios narrativos, ambientes. Uma exposição inaugurada no passado dia 10: Contranatura, de Bartolomeu de Gusmão e Sebastião Casanova. Gosto do ramo podre da natureza morta, em contraste com o painel de nudes numa das paredes. Representar nudes, a fetichização do corpo próprio segundo si mesmo. Não é preciso ir aos livros para saber que estamos impossibilitados de nos observar, isto é, de chegarmos com os olhos a certas partes do corpo. Recorrendo a espelhos, câmaras, smarthpones, estas nudes mostram como o ser humano busca aceder-se a si mesmo, ao que lhe é vedado pelos sentidos, as partes a que os olhos não chegam. Ninguém vê as suas costas senão recorrendo a um intermidário. Pintar estas poses, estes nus contemporâneos, é diferente de sugerir a pose que se pretende pintar, há uma subjectivação do olhar, da perspectiva, típica do individualismo em que a pós-modernidade nos enclausurou. Um dia aprenderemos a escapar ao Eu, a libertarmo-nos do Eu, a soltarmo-nos do Eu, a desagrilhoarmo-nos do Eu. O Eu, a prisão. Uma peça, exercício final de alunos de teatro: Estreito, de Joana Craveiro. Polifonia improvável de vozes poéticas a partir de uma questão: o que pode a poesia em tempos de ruína. Velha questão. Bem, algumas das vozes seleccionadas pouco têm a dizer-nos sobre o tema. A música dos Godspeed You! Black Emperor, ao contrário, tem tudo a dizer-nos sobre ruína. Pergunto-me sobre o grau de aprofundamento em torno daquelas palavras, as de Herberto, Bolaño, Audre Lorde, Adília, Rupi Kaur, Mahmoud Darwish... Alguns quadros interessantes: a rapariga sentada, a ler, em cima da máquina de escrever, a terra vazada sobre o corpo erecto, a água a escorrer sobre os rostos, os objectos espalhados pela cena, os carros de mão repletos de sapatos, num labirinto de referências confusamente entrelaçadas. Mas gostei de ver as miúdas e os miúdos, o modo como os corpos serviam as palavras permitindo que os versos ressoassem na sala. O Insulto ao Público, porém, não resultou, ficou aquém do que o público merecia verdadeiramente. O próprio texto de Handke, hoje em dia, teria de sofrer algumas adaptações. O público merece cada vez mais uma verdadeira chapada nas trombas.  

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

PARTIR PARIR

 
Andar nas ruas já foi mais vantajoso, quando desconhecíamos por completo as caras que se cruzavam connosco. Agora somos interrompidos, massacrados com todo o tipo de apartes, brindados com cumprimentos cujo efeito é descontinuarem a marcha do pensamento em estado de observação. E depois há aqueles que falam muito, falam tanto, não se calam, os cotovelos rasgam-se e de lá saem línguas compridas tagarelantes, encimadas por favolas afiadas, prontas para morder enquanto em nós cresce uma vontade de partir. De partir dentes e de partir para longe. Verbo curioso, este verbo partir. Menos um pouco, seria parir.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

UM POEMA DE CHARLES BUKOWSKI

 


cara do candidato num outdoor
 
ei-lo:
poucas ressacas
poucas brigas com mulheres
poucos pneus furados
nem um pensamento suicida
 
não mais que três dores de dentes
nunca falhou uma refeição
nunca foi preso
nunca se apaixonou
 
7 pares de sapatos
 
um filho na faculdade
 
carro com um ano de uso
 
apólices de seguro
 
um relvado verdejante
 
baldes do lixo bem tapados
 
será eleito.

Charles Bukowski, in Play the Piano Drunk / Like a Percussion Instrument / Until the Fingers Begin to Bleed a Bit, 1979. Black Sparrow Press. Versão de HMBF.

UM COPO, UM TEXTO

Não creio que o gosto seja ideológico, sobretudo num período histórico esvaziado de ideologia como o nosso. O gosto forma-se e transforma-se com o tempo, quer a nível individual, micro, quer a nível social, macro, como verificamos quando olhamos para as tendências que percorreram e continuam a percorrer a história da humanidade. Kant, por exemplo, admitia uma dimensão subjectiva no gosto, mas não rejeitava a pretensão de universalidade desta subjectividade. Para o gosto contribuem a educação, a formação, o ambiente social, a herança cultural e, estou hoje convencido disso, a disponibilidade de cada um para se aventurar no desconhecido, a curiosidade que alimenta o desejo de encontro, de cruzamentos potenciadores dessa transformação a que o gosto está sujeito. Ao longo da vida, não gostamos sempre das mesmas coisas e da mesma maneira. Porquê? Talvez isto tenha que ver com os níveis de conhecimento que acompanham o desenvolvimento pessoal, estudado, em diversas vertentes, por Piaget, Erikson, Freud, Vygotsky (são os que mais se estudam em Psicologia do Desenvolvimento). As teorias do desenvolvimento cognitivo, social, sexual, etc., são relevantes nesta matéria, pois ajudam a entender como também na formação ou deformação do gosto está implicada a relação da pessoa com o mundo. A única ideologia que aqui importa é anterior à formação do gosto, é aquele que ou se preocupa ou descura com/as condições que tornam possível o desenvolvimento do gosto. Portanto, continuamos cativos dos meios que tornam possível ou impedem a emancipação. Epicuro já falava disto quando defendia a educação das mulheres e dos escravos. As belas-artes, que são apenas um dos domínios em que o gosto se forma ou deforma, não esgotam o desenvolvimento do gosto. Na cultura de massas, o gosto é como aprender a andar de pé. Forma-se por imitação, uma imitação que ajuda à integração. Há fenómenos de idolatria, por exemplo no domínio da música popular, fenómenos de veneração, de tipo quase religioso, que colocam o artista num patamar divino, sagrado, aquele a quem se presta tributo indo aos concertos, comprando os discos, “per-seguindo” nas redes sociais, etc... Mas esses fenómenos, que não são propriamente novos, embora atinjam hoje escalas impressionantes – veja-se o fenómeno Taylor Swift – acompanham a formação do gosto, tanto por adesão como por reacção, que não me parece ter na sua base qualquer tipo de ideologia, como terá, certamente, uma forte influência das técnicas publicitárias de sedução que vieram impor-se à propaganda. A premissa de que «o gosto é ideológico» não me parece, portanto, um bom ponto de partida, conquanto a ideologia possa ser determinante na materialização de condições a partir das quais o gosto venha ou não a desenvolver-se. (Made in Casa Antero, a partir de prosa do FMR)


terça-feira, 13 de janeiro de 2026

30 MULHERES

Se não aconteceu comigo
é porque não aconteceu

Se não aconteceu comigo
como pode ter acontecido?

Ó, merda, aconteceu-me
E agora? Digo? Não digo?

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

IRÓNICO DESTINO

 
O Centro de Saúde mudou-se para o edifício do extinto Externato Ramalho Ortigão, onde vendi docência, se não estou em erro, entre 2000 e 2008, estava já o antigo Externato ocupado pela Associação para a Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica. Onde dantes havia professores e alunos, há agora doentes, pacientes, corpos entrevados e amaldiçoados pela doença e pela alienação. Irónico destino.

domingo, 11 de janeiro de 2026

DEADLINE

 
Saltar da cama com queixas sobre o tempo, não o dos termómetros, antes o dos cronómetros. Aquela sensação de não nos sobrar tempo para nada do que julgamos essencial, como, por exemplo, arrumar papéis, queimar papéis, amarrotar papéis, os papéis que nos vimos obrigados a desempenhar quotidianamente para plateias adormecidas. Então digo: preciso de tempo para maturar ideias, para pensar, para reflectir. E o espelho devolve-me exactamente o que acabei de dizer como a um eco. Falamos para o vazio, citamos os gregos que elogiavam o ócio contra a preguiça atávica, o ócio que lhes permitia chegar a conclusões tão definitivas como a de que estar vivo é o contrário de estar morto. Queixo-me, salto d’O Livro Azul para O Livro Castanho, marco no Excel os dias já passados, olha para o que aí vem, meto as mãos à cabeça, tanto que fazer, meu Deus, como vou conseguir oferecer ao corpo as caminhadas do pensamento? Não fossem precisos pão e vinho sobre a mesa, ficaríamos a sós com o mundo nisso de senti-lo pensando-o, pensá-lo sentindo-o. Mas há os telefonemas, os emails, os projectos, os deveres, as obrigações, os planos, as planificações, há as datas, as deadlines, as calendarizações, toda essa tralha que nos traz atrelados.