quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

UMA "NOVNIDADE"

Aqui.

POESIA PARA ADORMECER:


o famoso carneirinho aproxima-se,
quatro carneirinhos passam-no por cima
do primeiro número

no número dois, dois carneiros velhos
convencem uma ovelha que o quatro é ali
e ela não se mexe enquanto eles a lambem

no número três entra o sonho de dois carneiros
bastante humanos

no número quatro notou-se a falta de uma porca,
essa ovelha, todos a conheciam, todas a haviam visto

no número cinco chove e um carneiro cobre
a sua amada com os olhos molhados de emoção

no número seis anda tudo com as patas cheias de lama
e na realidade o homem instintivamente desvia a mão
da mulher

no número sete uma ovelha olha a mulher nos olhos
até os lençóis de lã serem atirados para trás

no número oito grita um mémé perdido e de cabeça
molhada

no número nove um carneiro tropeça e acende-se
a luz da cama

no número dez alguém se esqueceu de lavar os dentes,
de acordar virado para o mesmo lado, de dormir

no número onze há finalmente espaço para pernas
abertas e um carneiro a sério


Nuno Moura, in Os Livros de Hélice Fronteira, Regina Neri, Vasquinho Dasse, Ivo Longomel, Adraar Bous, Robes Rosa, Estevão Corte e Alexandre Singleton, Mariposa Azual, Abril de 2000, pp. 64-65.

RUA MARQUÊS DE RIO MAIOR

A rua Marquês de Rio Maior tem uma ligeira inclinação, óptima para corridas de carrinhos de rolamentos. No lado noroeste da rua mora uma rapariga de cabelos encaracolados que se debruça sobre a varanda a ouvir a guitarra eléctrica do rapaz que toca na cave da residência a sudoeste. Entre os dois circulam, à laia de competição, vários carrinhos de rolamentos, conduzidos geralmente por rapazes que chegam a usar capacete. O futuro está escrito nas marcas que deixam no alcatrão: a rapariga crescerá com o som da guitarra eléctrica metido no sangue, como entre os cobertores se metem moléculas microscópicas de ADN; mais tarde, encontrar-se-ão num café e ele dirá «estás uma mulher feita», ao que ela responderá, com terrível crueldade, «e tu um homem desfeito».

UM TU ABSTRACTO

Edmundo tinha um sonho, ouvir alguém ler-lhe a sina. Então consultou uma quiróloga chamada Mãozinhas. A quiróloga chamada Mãozinhas ficou muito aflita quando viu Edmundo sentar-se à sua frente. Perguntou: que te traz até a mim, meu querido rapaz? Edmundo respondeu: tenho um sonho, ouvir alguém ler-me a sina. Mas, meu querido rapaz – retorquiu a quiróloga Mãozinhas −, tu não tens mãos, nem sequer braços tens. Isso é problema seu, disse-lhe Edmundo. Então, a quiróloga aproximou-se dos ombros amputados de Edmundo e disse-lhe: meu querido rapaz, tu não tens futuro. Edmundo suspirou, sentia-se realizado.

terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

M DE DESEJO



Vinha nas curvas e contra-curvas do regresso, com o bafo a formar estranhas formas no vidro dianteiro e a música dos Lambchop a servir-me de almofada, quando me ocorreu uma certeza: podia morrer a ouvir Lambchop que morreria feliz. Não será o caso, pois claro. Depois de oito horas seguidas de livraria, ainda encontrei forças para passar pela casa do Fonseca. O Pedro vai testar a Filosofia e precisava de uma força, de um motivo. Falámos de problemas, teses, teorias, argumentos e contra-argumentos enquanto eu, fazendo-me pagar num conhaque calibre 7,62mm, recordava os meus queridos ex-alunos com a nostalgia parva dos caçadores de letras. Se não sabem o que é um caçador de letras, visitem o Parque D. Carlos I num domingo à tarde. Finda a explicação, fiz-me ao caminho. Esperava-me uma família inteira à volta de uma mesa, picanha, vinho tinto, Macieira, o juízo em dia, conversas, actualidade, 66 anos de vida, a mãezinha. Ela diz-me que quando me pariu ficou com uma dor de queixos insuportável, de tanta força ter feito para me pôr no mundo. Eu fui sempre uma trabalheira, logo à nascença 5kg300g de gordura abjecta, um chorinho contido ainda hoje retraído nas ventas da gargantilha, uma morna, um funáná, uma despesa, a música dos Lambchop de regresso a casa. Mas antes, os olhos húmidos da minha irmã comunicando-me dos tumores na cadela aninhada da minha Lisboa perdida. Foram bons tempos. Eu chegava do Bairro e a Bianca saltava-me para o colo, voltava o focinho ao meu bafo alcoólico, enroscava-se-me no pernil trémulo enquanto eu recorria aos versos de Rilke para explicar ao meu mundo que a vida não tem que ter uma chuva miudinha, um bafo desenhado no vidro da memória, os pára-brisas avariados das olheiras. Se não percebem o que vos digo, experimentem visitar o Parque D. Carlos I num domingo à tarde. Adiante. Invejo os olhos húmidos da minha irmã, não porque os meus sejam menos húmidos que os dela, mas porque são mais fundos, a lágrima demora mais tempo a vir à superfície, tem de percorrer uma distância imensa entre o coração e a maçã do rosto, mas quando chega, valha-nos deus, nem pára-brisas remedeiam o sal do sangue, nem barragens de indiferença estorvam o caudal. Foi o que sucedeu, com a música dos Lambchop a servir-me de almofada, uma lua cheia insinuando-se entre nuvens finas de um céu denso, pingos de angústia caindo sobre o caminho, a lembrança fazendo-me crer que há uma mosca, um insecto, a corromper a funérea sensação de estar quite. Que digo eu? Visitem o Parque D. Carlos I num domingo à tarde, foda-se, metam os Lambchop a tocar nas armaduras do desejo, pensem que sim, que esta semana foi muito importante porque a filha aprendeu a primeira letra de um nome inteiro, Matilde, M, Morte, Maravilha, M, Maçã, M, desejo, M de desejo, diz-lhe o pai e ela fica com aquele ar atento das avestruzes e reclama: desejo não tem M. Enganas-te, filha, desejo tem M de música, e eu sou o teu som neste preciso momento, o teu acorde argumentativo, a tese que contradirás um dia com pouco mais que uma ideia, uma imagem, os olhos de quem passou anonimamente por aqui à procura de não sei bem o quê porque eu nada tenho a oferecer ao mundo, eu sou um traste, uma desgraça, eu sou a melodia agoniada dos dedos cansados, um impulso, a literatura cansada das pedras e eles, filha, eles serão os génios que farão da nossa morte vida, eles são os sábios que farão diamantes da nossa areia ressequida, eles são os mestres que um dia vencerão de nos verem derrotados e sós e nós, filha, nós seremos os olhos húmidos da tia vindo à superfície de um rosto, nós seremos apenas uma coisa que por aqui passou e que ninguém saberá como por aqui se aguentou por nunca terem, eles, filha, por nunca terem experimentado como nós experimentámos visitar o Parque D. Carlos I num domingo à tarde.

segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

BOHEMIAN RAPSODY


Pessoal e intransmissível.

POSTO DE INFORMAÇÕES

Hoje vieram procurar lápis, envelopes, forros para blocos de apontamentos (?), leitores de DVD, livros de borracha. Também me perguntaram se eu sabia onde é que se vendiam calças Levis para criança. Perguntei se com a cintura baixa ou modelo clássico.

ELOGIO DO CINISMO (9)


A paixão cínica pode ser duplicada por uma vontade aristocrática. Sempre gostei que Roger Vailland, comunista, conduzisse um Jaguar MK II, tomasse heroína e que o seu compromisso, ao lado dos despojados, fosse apenas suspeito aos olhos das belas almas ainda piedosas, ou até cristãs até às entranhas, que só dão crédito aos pensamentos de esquerda no caso de estes envergarem, ridiculamente, os ouropéis caricaturais de uma pobreza composta, ostensivamente exibida a tiracolo. A culpabilidade não é uma obrigação nem um dever, pela simples razão que uma política hedonista, libertária e de esquerda, ilustra-se menos pela arte de empobrecer os ricos do que pela de enriquecer os pobres.
Longe daquilo que, numa dada época, pôde caracterizar uma esquerda dita «caviar», sobre a qual ainda se procura saber o que fazia dela uma esquerda, quando já não existem mais dúvidas sobre as razões e a existência da sua intoxicação ao beluga, um pensamento libertário, infundido por uma mística de esquerda, pode muito bem funcionar no registo artístico. Como prova, para além de Roger Vailland, as páginas soberbas escritas por Oscar Wilde, sob o título
A Alma do Homem sob o Socialismo ─ um livro de plena actualidade, após um século de existência ─ ou, mais inesperado, um almoço que aproximou, nas primeiras semanas de 1849, Baudelaire e Proudhon, numa pequena loja de pronto a comer da Rua Neuve-Vivienne. Um olhar ao sistema das contradições económicas, outro para saborear as flores do mal ou provar os paraísos artificiais, tendo o conjunto por desígnio o que Séverine chamava, no século passado, um dandismo revolucionário ─ esta mistura não deixa de me agradar.
A opção libertária, não tendo a obrigação de operar ao lado da compaixão no seu registo cristão, não me parece legítimo que para se ser credível se tenha de ser pobre ou despojado de si próprio, pois os detractores diriam, então, que o comprometimento político seria motivado por um ajuste de contas pessoal ou pelo ressentimento, no que encontrariam novos motivos para o descrédito que tanto procuram. Dandismo e pensamento libertário funcionam às mil maravilhas em todos aqueles que, longe dos imperativos do realismo socialista, em virtude do qual é necessário submeter a arte à política, postulam exactamente o inverso e esperam da arte que ela dê forma ao político, que o alimente, que lhe transmita força, vigor e energia. Nessa perspectiva, o dandismo contemporâneo do século da revolução industrial pode ler-se como reacção contra a unidimensionalidade gerada pela metamorfose do capitalismo.
Contra o igualitarismo, essa religião nociva da igualdade, o dandismo reivindica uma subjectividade radical activa, no combate contra todas as palavras de ordem do momento: culto do dinheiro e da propriedade, dogmas burgueses e mitologias de família, economia sensata dos casais e consumo da imprensa como única referência intelectual, cultural, de tudo o que constitui a tonalidade da época. Baudelàire afirma e exibe uma furiosa independência de espírito, uma animosidade particular em relação aos burgueses, venham eles de onde vierem, da esquerda ou da direita. Professa o culto do inútil e do artifício, do lazer e do gratuito, onde a maioria se esgota no útil, no rentável, no trabalho, na renda.
O dandy procura o sublime. A política libertária aspira ao mesmo tipo de objectivo: a assunção do indivíduo artista reage contra a queda dos particulares nos «bas-fonds» onde triunfam as virtudes e os valores burgueses. O poeta contra o farmacêutico, o pintor como remédio à frouxidão da vida moderna, o escritor à laia de resposta às infâmias induzidas pela industrialização e pela era da reprodução mecânica dos objectos, dos homens, das obras de arte ─ pensemos nas imprecações do poeta sobre a fotografia ─ ou das individualidades. Na época do reproduzível, todos são pensados, desejados e construídos segundo o mesmo padrão. O dandismo teoriza a reivindicação de garantias, multiplicadas pela expressão da individualidade e pela soberania das monadas.
O dandismo revolucionário, formulado por Séverine, não supõe a comunhão nalgum outro pecado venal, por vezes mortal, cometido por aqueles que estremecem não muito longe da mística de esquerda: o dever de amar o povo, a obrigação abjecta de celebrá-lo, de lhe conceder ou emprestar méritos, pois uma vista de olhos retrospectiva sobre a História deveria dissuadir a prática desse entusiasmo tão perigoso quanto nefasto, fornecedor, em cada ocasião, dos gregarismos políticos, do estalinismo ao nazismo, passando pelas fórmulas europeias de um nacional-populismo declinado nos registos italiano, espanhol, francês, grego e da Europa de Leste. Não há nada mais devoto para com o povo que as declarações de Lenine, Estaline, Hitler, Pétain, Mussolini, Franco, Le Pen e tantos outros, cuja fabulação sobre este universal das suas contas se alimenta do esquecimento e da negligência dos indivíduos, únicos princípios ou unidades operatórias em matéria de política. O dandy prima na farmacopeia que se opõe ao
homem das multidões.

Michel Onfray, in A Política do Rebelde – Tratado de Resistência e de Insubmissão, trad. Carlos Oliveira, Instituto Piaget, 1999, pp. 194-196.
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ARTUR

Tive um cão chamado Artur. Não era meu, mas acompanhou-me durante um Verão passado em Odeceixe. Portanto, como tudo o que algum dia me acompanhou, tive-o pelo tempo que o mereci. O Artur foi uma excelente companhia, era perspicaz, carinhoso, um exímio caçador de pinhas, um guarda que se chegava à tenda sempre que escutava lá no seu modo de escutar o mais ínfimo formigueiro. Nunca mais vi o Artur senão em pensamentos. Sou visitado amiúde por este cão, pelas memórias desse Verão de 1996, pelo sorriso do meu amor sentada numa mochila enquanto eu fumava um Marlboro e ambos esperávamos o autocarro que nos haveria de levar até Vila Nova de Mil Fontes. Montámos a tenda durante uma, duas noites, não mais. O parque era ruidoso, mais que os meus cabelos compridos e o sorriso jovial do meu amor a olhar o desaforo com que eu enfrentava um bloody mary a saber a ketchup. Depois apanhámos boleia para Odeceixe.

Que será feito do Artur nas noites de Verão? Que é feito de nós adormecidos um ao lado do outro, enquanto ao lado de nós, separados por finas paredes de tecido impermeável, outros casais adormeciam? Que é feito daqueles longos cabelos que o teu sorriso penteava por debaixo da sombra de extensos eucaliptais? Eu sei onde fica a fachada desta casa, tem uma só janela de madeira protegida por uma rede que impede os insectos de se intrometerem no sono, tem cadeiras pintadas de vermelho, uma jarra com flores silvestres sobre o tampo da mesa, um tampo contornado pelos malmequeres que alguém ali pintou enquanto orava aos budas expostos sobre o aparador. É um móvel dos antigos, esta casa, um armário com portas e janelas, duas gavetas, uma base onde deixámos a bilha de barro cheia de água fresca. É um cabide coberto de canecas especiais, cada uma com a sua memória de visitas esporádicas - como esta agora aqui sentado folheando as fotografias do verão de 96.


Tinhas um vestido preto, de alças, com florinhas brancas, tinhas o ar que ainda tens quando o teu sorriso se senta no baloiço montado entre os dois pinheiros, dois pequenos pinheiros nascidos das sementes que largámos sobre a Terra, quando descansas à beira de árvores antigas, na sombra dos medos que te consomem sempre que eu escrevo com o feltro da pele a palavra nua: amor. E o Artur atacava-nos as Dr. Martens com aquele sorriso canino que sempre gostei de pôr em tudo o que escrevo, bebíamos shots de vodca, uníamos os corpos no terraço, debaixo de um mar de estrelas, afogados numa luz milenar que sempre soubemos apreciar com os olhos de quem olha pela primeira vez. Mesmo quando embalados na rede esticada ao lado do baloiço, mesmo quando ensaboados pelo chuveiro balde, roubávamos à garganta os acordos tortos da nossa canção preferida.


O presente é uma coisa estranha, anda sempre atrás de nós. E já ali estava, olha para ele, no regresso, quando voltámos do Verão cheios de trabalhos, uma tese, talvez sobre Heidegger, e eu desesperadamente concentrado no ser para a morte quando sempre quis ser apenas para a vida. Merda para o Heidegger, dizias. Mas a culpa não era do filósofo alemão, não tanto como era de um semestre inteiro a ouvir o César das Neves especular sobre a melhor tradução para dasein. Eu bem lhe tentei explicar, mas ele não me deu ouvidos. Dasein é o Artur a ser lembrado daqui a, sei lá, 13 anos, é o sorriso do meu amor comovido com a leitura de um texto que hei-de então escrever, é eu para a vida enquanto ao fundo da estante a figura de Nietzsche se cola à sombra de Sócrates com a Janis Joplin a fumar um charro de premeio. Dasein, ó senhor professor, é tomar banho debaixo de um chuveiro balde enquanto o Artur me lambe os pés e os pinheiros abanam ao vento da nossa alegria. Chumbei.

OS ESCRIBAS


Nunca senti por eles grande entusiasmo.
Se eram excelentes eram também petulantes
e de um trato tão espinhoso como o azevinho
de que extraíam a tinta.
E se nunca fui um deles também é certo
que nunca me puderam negar o meu lugar.

Na quietude do
scriptorium
crescia neles a todo o tempo uma pérola negra
como o velho coágulo seco por dentro das penas.
À margem de textos laudatórios
arranhavam, esgadanhavam.
Rosnavam se o dia estava escuro
ou se giz a mais amolecera o
vellum
ou giz a menos o deixara oleoso.

Sob os dorsos da caligrafia
arrebanhavam rancores míopes.
Sementes de ressentimento ponteavam-lhes
as espirais de fetos das maiúsculas.

De vez em quando eu tinha um sobressalto
a milhas de distância, e via na minha ausência
o cursivo inclinado de cada dorso, e sentia-os
a aperfeiçoarem-se contra mim, página a página.

Que se recordem deste contributo não desprezível
para a sua arte de invejas.


Seamus Heaney, in Da Terra à Luz – poemas 1966-1987, trad. Rui Carvalho Homem, Relógio D’Água, Janeiro de 1997.

QUEM TRABALHA É QUE SE LIXA

Isto aqui não vai com cravos. Neste país, só com ferraduras. E mais esta qu'é para aprender: a vida não pode ir à frente da beleza.

RUA DE SANTA BÁRBARA

Na Rua de Santa Bárbara os edifícios estão quase todos em construção. Vivendas de bom porte contrastam com as casas dos mineiros, do outro lado da rua. As crianças aproveitam as paredes abertas para imitarem os filmes de acção. Pegam em tubos largados pelo piso térreo, munem-se de azeitonas, disparam contra as sombras a descoberto nas salas em esqueleto. Na Rua de Santa Bárbara há uma virgem mártir, chama-se Felicidade.

ELEANOR RIGBY


Ao contrário do Luís, leio cada vez mais livros. A culpa é da tempestade que não anda nem desanda. Os raios ameaçam trovoada, mas os aguaceiros não vêm à terra limpar-nos as horas. Três episódios seguidos do House também não ajudam. É verdade que durmo pouco, sou um rapaz inquieto – só não peço desculpa por isso porque dizem que serve para criar coisas bonitas −, comovo-me com o Fernando Lemos numa cadeira de rodas lembrando-me de onde vim, quem sou, para onde não vou: Fiz uma rosa contemporânea /com um compasso/não cheira/nem sonho com ela//Fiz um sonho com duas linhas/mas não acordo/nem sinto os olhos//fiz um quadrado/com a rosa dentro/nas duas linhas//e estava escrito o meu desalento.

domingo, 29 de Novembro de 2009

RUA DAS FLORES

A Patrícia diz-me que gosta do Inverno porque pode usar cachecóis. Ao escutá-la, lembro-me da Rua das Flores. Vi por lá mulheres antigas, sentadas em bancos de madeira, tecerem a lã das golas altas, das peúgas, dos casaquinhos para os netos, dos cachecóis. Vi por lá crianças pobres, filhas de pais avessos, outras tratadas como mandavam os cuidados da vida burguesa. Havia um rapaz que jogava futebol, estacionava o carro a altas horas com mulheres penduradas ao pescoço. E um fadista que desaparecia amiúde deixando para trás a mulher grávida de nove filhos. Havia um homem que tinha uma mula, uma rapariga feia que andava sempre ranhosa, um casal de beatos, ela mais que ele, ele parecia-me paneleiro, e uma mulher que cozia pão todos os dias. Deixámos de lhe comprar o pão no dia em que veio brindado com uma caganita de rato. Do que eu mais gostava na Rua das Flores era da taverna de balcão mármore, mesas onde se batiam cartas, bebiam ginjas. Comprei lá os primeiros definitivos, bebi lá a primeira gasosa, foi de lá que trouxe, um dia, a ideia de que nunca é tarde para mudar de vida. Não me perguntem agora porquê. Curiosamente, nunca vi flores na rua das flores. Só as bordadas pelas mulheres antigas.

FADO

Fomos a Lisboa ver a bola plasmada na sala do amigo Ferreira. Enquanto o esférico traía os pés tortos da maralha, cumprimos o ritual do fondue e deitámos abaixo uma de tinto. Voltei a beber uísque, que fique registado. Já não aquecia o fígado com puro malte desde que adormeci ao lado de um ecoponto. Muitos anos passaram. À época, como lembrou o camarada Ferreira, conquistávamos as caves ao som dos Nirvana. Agora andamos para aqui. Por mim, ando ora manco, ora recto, mas sempre radical no que parece ter entrado em desuso nas divisões do coração, essa coisa estranha a que chamam cumplicidade. Por ela, os fados do Rodrigo foram baladas para os meus ouvidos.

QUEM É O ASSASSINO?



O juiz que costumava julgar os processos-crime, disparou contra um corço no território grande da reserva. Depois de ter dado o tiro de misericórdia, disse assim:
─ A caça é a paixão mais nobre.
O procurador fazia colecção de borboletas. Furava com um alfinete os seus abdómenes e, quando já estavam mortas de asas abertas, pensava:
─ Assim é a sede de saber.
Quem escreve estas linhas e também a reportagem sobre um assunto de crime, é um adepto entusiástico do pólo aquático. Se algum jogador da sua equipa dá um pontapé no estômago do adversário, ainda o encoraja da tribuna.
─ O pólo aquático é um desporto duro ─ costuma dizer-se. E o que é que disse o assassino?
Não esteve com rodeios. Confessou, compungidamente, ter morto a mulher que o tinha traído com toda a gente, impelido a sua filha à desmoralização, arruinado a família inteira. Disse desanimado:
─ Sou um assassino.
Foi enforcado.


István Örkény, in Histórias de 1 minuto, vol. 1, trad. Piroska Felkai, 2.º tiragem, Cavalo de Ferro, Novembro de 2004, P. 123

SAPPY


Trazem-nos chá com torradas, doce de tomate. O que penso disso? Não penso nada. As caves onde andávamos aos encontrões fingindo que dançávamos foram todas transformadas em salões de chá, agora é proibido fumar e respirar mata, passeamos os olhos por centenas de canais. Alguns jovens têm um ar muito sério e respeitável, querem ser clones dos pais enquanto os pais os colonizam. Outros fumam drogas, roubam carros, passam horas no ginásio a enrijecer os músculos com que defenderão as damas dos rivais. Mal sabem elas que o mais provável será, dentro de anos, servirem de saco àqueles músculos. Sobre assuntos destes fazem-se estatísticas. O que penso disso? Não penso nada. Bebo um chá e como torradas.

CARAPAUS GRELHADOS

A minha mulher tem o terrível defeito de me amar. Esforço-me para o contrário, mas ela lá vai dizendo que não pode viver sem mim. Uma vez fiz-lhe uma surpresa. Levantei-me cedo, fui ao mercado comprar pão caseiro e queijinhos frescos, legumes para uma salada e carapaus. Depois grelhei os carapaus, temperei uma salada, cozi umas batatas e um ovo, servi-lhe os queijinhos de entrada. Ela gostou de molhar o pão caseiro no azeite, debicou a salada e os queijinhos, mas quase não tocou nos carapaus. Queixou-se de que o peixe grelhado lhe provocava gases. Após a refeição, ferrou-se a dormir e deixou-me a sós com os carapaus. No dia seguinte, disse-lhe que ia comprar cigarros e pus-ma a andar. Só parei ao quilómetro 15, quando as pernas não aguentavam mais e as bolhas cresciam nos pés. Apanhei boleia para o mais longe possível. Regressei a casa passados cinco anos. A minha mulher olhou para mim e perguntou: já? Disse-lhe que tive saudades de casa, ela respondeu-me que não podia viver sem mim. Viveste os últimos cinco anos sem mim, lembrei-lhe. Ela sorriu-me, abraçou-me, perguntou-me se eu queria carapaus grelhados ao jantar.

MEDITAÇÃO


o amor é como o trigo
a alguns já lhe chega em pão
mas se no momento antigo
o amor é sol vento e chão

esses sabem-no pela televisão

Miguel-Manso, in Quando Escreve Descalça-se, Trama Livraria, Novembro de 2008, p. 31.

sábado, 28 de Novembro de 2009

PROVÉRBIO

Onde estão os livros de poesia, perguntou Baltazar. Estão ali, respondeu-lhe o livreiro, apontando para uma estante ao fundo da sala. Baltazar dirigiu-se para a estante com os olhos postos numa, duas, três, quatro, cinco prateleiras abarrotadas de livros de poemas. Junto à estante, o apetite murchou. A estante era realmente descomunal, mas afinal os livros de poemas ocupavam apenas metade de uma das prateleiras. Só têm isto, perguntou Baltazar. E não lhe chega, respondeu-lhe o livreiro. Baltazar sentiu que não tinha como responder àquela pergunta. Como nunca fora dado a leituras, seria de um descaramento enorme protestar contra pobreza tão evidente. É como diz o povo, a cavalo dado não se olha o dente. E o leitor interroga-se: e daí? O próprio Baltazar se interrogou. Que tinha o povo e o cavalo e o dente do cavalo que ver com aquela situação? Por que razão vinha o ditado à baila? É que burro com fome, cardos come. O quê? Burro com quê? Mas a que propósito surge agora a fome do burro? Há sempre um ditado para tudo, pensou Baltazar. Pensou também que este pensamento podia transformar-se num ditado: há sempre um ditado para tudo. Pensou igualmente que havia nos provérbios populares um não sei quê de poesia, algo que contrastava com aquela prateleira indigente. Por que razão eram os provérbios populares e os poemas assunto de meia estante? Tentou em vão recordar-se dum poema popular. Lembrou-se de uma quadra que lhe fora oferecida por um dos seus amores: gosto muito dos teus olhos, muito mais gosto dos meus, se não fossem os meus olhos, não podia ver os teus. E então pensou que cada um vê mal ou bem, conforme os olhos que tem. Lá estava, mais um provérbio popular a intrometer-se entre ele e aquela estante anoréctica. Tem livros de provérbios, perguntou Baltazar ao livreiro. Estão aqui, respondeu-lhe o livreiro, colocando a mão sobre um monte de livros de provérbios expostos em cima do balcão. Então Baltazar deu uma volta pela livraria, pegou num livro sobre pombos-correios e num livro com as páginas todas em branco, dirigiu-se ao balcão para pagar e pediu uma esferográfica. Depois escreveu no livro com as páginas em branco o seu primeiro poema: a vida não tem remédio, arranja-lhe um provérbio. Mostrou-o ao livreiro e perguntou-lhe onde é que ele arrumaria aquele livro se o quisesse vender. O livreiro olhou-o nos olhos e respondeu-lhe que quem cabritos vende e cabras não tem, dalgum lado lhe vem. E nisto, Baltazar rematou: casa de pombo, casa de tombo.

QUE SABEMOS NÓS


para o Augusto Mota


Que sabemos nós das dores de cada um?

sabemos dum rio dum pomar duma flor
dum pássaro morto na primavera
e tudo isso escrevemos num poema

─ mas das dores de cada um que sabemos nós?

dos homens anónimos que viajam na solidão dos eléctricos
dos meninos que amanhecem mortos
junto aos muros das grandes cidades que sabemos nós?

sabemos dum nome que o jornal traz todas as manhãs
mas dos homens que vendem os jornais que sabemos nós?

sabemos acaso como doem as suas lágrimas no silêncio
quando a tarde é uma pedra de melancolia
caindo sobre os ombros?
ah tudo isso escrevemos num poema
mas de tudo isso que sabemos nós?

quando as luzes se acendem na cidade
e a noite é uma lágrima
que sabemos nós do desespero das mãos vazias
dos olhos que não vêem mais que a noite
para além duma janela sem cortinas?

ah tudo isso escrevemos num poema
mas dos que ficam para contar aos que vierem
das suas dores na madrugada
e da esperança que a noite trará um dia às suas mãos vazias
e aos seus olhos que não vêem mais que a noite
para além duma janela sem cortinas que sabemos nós ?

─ ah tudo isso escrevemos num poema.

Luís Pignatelli, in Obra Poética 1953-1993, &etc., Maio de 1999, pp. 23-24.

ANTES AGORA


Há 33 anos, Maria Gabriela escreveu: «Não sou uma mulher mãe, sou uma mulher escritora, um ser humano que sobreviveu por graça da escrita, e o seu exercício falta-me terrivelmente». Mas os escritores mentem, mentem com quantos dedos têm, e sob um céu índigo de uma tarde de Novembro tu podes terminar um livro a pensar que és um homem pai, um homem pai escrevente e que sobrevives do ar que respiras, alternadamente purificado pelo fumo dos cigarros e pela sombra das palavras. Podes também perguntar-te como era antes. E logo respondes a ti próprio que não era muito diferente, promessas que jamais cumpririas, de ano para ano repetidas, promessas, desejáveis promessas, fixadas pela palavra até o corpo te exigir um gesto que fosse todo ele corpo, um gesto que cumprisse a promessa por cumprir. E algumas, apesar de tudo, foram sendo cumpridas. Como essa de te manteres vivo. Mas antes como era? Como era antes? Não era muito diferente de agora, pensas. Sentavas-te no sofá até a almofada se afundar debaixo do teu corpo, até o teu corpo deixar no soalho as formas da carne, sentavas-te a ver televisão, a ouvir música, fingias que acompanhavas os teus músicos preferidos, vias Alice repetidas vezes e choravas, ouvias Bernardo Sassetti numa tarde de Novembro, contavas pelos dedos o amor que tinhas, olhavas as filhas, dantes, dantes olhavas as filhas de agora e pensavas que um sorriso todas as manhãs podia disfarçar-te as depressões da terra, não estavas, nunca estiveste, metido numa bolha senão a bolha do teu próprio corpo, da carne à qual oferecias bebedeiras desesperadas, à qual ofereces desesperadas bebedeiras, dantes o corpo exigia-te as bebedeiras e tu esmorecias, agora não agora dantes, porque como era Dante?, como era antes?, tu não eras Dante, eras apenas o Inferno submergindo nos ideais paradisíacos de um passeio pelos passadiços de madeira que acompanham as bainhas do oceano, dantes era a espuma dos dias, dantes era agora os dias feitos em espuma e em cinza e tu debaixo de Novembro a swingar um único ideal: o ideal do riso que era já dantes o teu ideal de agora, os dedos percorrendo o corpo das feridas, percorrendo mesmo, não como nos poemas, como na carne à qual os poemas vêm buscar sentido. Porque é isso que mantém vivo o exercício da escrita, pensas, esse riso diabólico com que enfrentas as marés e mergulhas, porque mergulhas mesmo, literalmente, nos mares bravios da memória. Quem está perto de ti sabe que nunca houve, nem dantes nem agora, outra vontade senão a de estar onde não estás, a inquietude do disco do Sassetti a caminhar até ti como tu caminhas nos passadiços de madeira que acompanham as bainhas do oceano, e pensas tu que dantes seria diferente, não. Dantes entretinhas-te a contar pelos dedos, agora usas uma máquina calculadora, dantes perdias horas a desfiar novelas, agora ocupas vidas a desafiar novelos, dantes foi apenas um prelúdio para o que agora cumpres porque nunca deixaste senão de cumprir o que se te oferece pela raiz da terra, o que te entra pelos olhos adentro, queima a retina, espicaça a íris, provoca a dor, traz à superfície a lágrima como um balde que vem do fundo de um poço seco, como um dedo que vem do fundo do coração, esse mundo que te entra pelos poros e metes na página digital, esse mundo que antes era já o mundo de agora, despejado antes para a página surda, agora para a janela ruidosa das vidas cibernéticas, porque tu sabes que viver está muito para lá desta ilusão alimentada pelas descargas de fúria com que palreias o que te entra pelos sentidos adentro, pela boca, pelas narinas, pelos ouvidos, tudo o que entra em ti porque antes, como agora, tu és um corpo no mundo, um corpo em relação com o mundo de outros corpos, outros corpos diferentes do teu antes agora, sob céus cinzentos de tardes índigo, noites de Novembro, e a música sacando-te a lágrima, My Funny Valentine, my funny, my valentine, my my my funny valentine, antes eras tu e eu e mais ninguém, agora somos nós dois e um antes inteiro muito depois de tudo o que foi antes. E nisto resta-te apenas o querer experimentar o mundo para lá deste agora, o querer continuar a experimentá-lo antes que se faça tarde, antes que a pressa encontre a demora.

A SOLIDÃO E O SONHO

O sonho encontrou a solidão numa noite de Verão. Foi amor à primeira vista. Como todos os amores de Verão, também este amor durou o que tinha de durar. Não estava na natureza da solidão entregar-se a quem quer que fosse, e muito menos fazia parte da natureza do sonho deixar de sonhar com o amor dos seus sonhos.

UM CASAL

Rodrigo foi acordado pela gritaria de um casal que discutia na rua. Levantou-se da cama, espreitou pela janela e viu um homem a tentar abraçar uma mulher enquanto ela o afastava repetidamente. Porém era ele quem dizia vai-te embora, vai-te embora, ao que ela lhe respondia não tenho nada, a minha vida é uma merda, e ele repetia vai-te embora, vai-te embora, e ela retorquia tu não gostas de mim, e assim sucessivamente. Impacientado com a cena, Rodrigo desceu do quarto até ao casal. Quando chegou ao pé deles propôs-lhes o seguinte: caro casal, já que fizeram o favor de me acordar com a vossa discussão, resolvi vir até aqui lembrar-vos de que a vida é, de facto, uma merda, pelo que o melhor é não afundarmos a merda na merda, sob pena de nós próprios acabarmos transformados num cagalhão. Ora, amanhã mortos, hoje vivos. Que tal se fôssemos os três para minha casa e transformássemos a merda em ouro com uma noite de amor a três? O casal olhou o rosto de Rodrigo com desprezo, mas assentiu. Depois de uma magnífica noite de amor a três, Rodrigo foi novamente acordado pelo casal em fúria. Ele repetia a mesma conversa da noite anterior e ela não variava nem uma linha no discurso. Então Rodrigo expulsou-os de casa, argumentando que a vida era, de facto, uma merda, o amor uma coisa muito linda, mas do que ele precisava mesmo naquele momento era de dormir.

POST-SCRIPTUM

Na verdade, a estória anterior não se passou exactamente como se encontra relatada. A mulher sacou de uma pistola e disse que se ia matar. O homem dizia-lhe vamos embora, vamos embora. Ela continuava a ameaçar que se ia matar. Rodrigo pegou na caçadeira e atirou contra os dois, deixando-se depois adormecer no maravilhoso silêncio da noite.

sexta-feira, 27 de Novembro de 2009


... A editora TEA FOR ONE tem o prazer de convidar V. Exa. para o lançamento da 2ª edição do livro "Onde não estou, tu não existes", de Marta Chaves, que terá lugar na Galeria Santa Clara, em Coimbra, dia 28 de Novembro (Sábado), pelas 18h00.

DESNASCER





Ainda ontem de madrugada, enquanto festejávamos um ano de buliço, eu confessava aos meus camaradas de serviço que só guardo uma frustração na vida: não ter estudado música. Ainda vais a tempo, disseram eles. Claro que sim, embora já seja tarde para ir a tempo. Independentemente disso, estas fotos deixam-me numa alegria infantil que vossas excelências nem imaginam. (Novamente AQUI)

RAIVA

Arnaldo nasceu e foi criado numa aldeia do concelho de Rio Maior chamada Arrouquelas. Conheci-o no arraial em honra de Nossa Senhora da Encarnação, durante uma partida de matraquilhos que Arnaldo jogou com a destreza dos mestres. Bebemos umas cervejas e metemo-nos à conversa. Depois cada um seguiu o seu caminho, mas eu nunca mais quis perder de vista as vistas de Arnaldo. Sei que andou de guitarra a tiracolo pelos bares algarvios. Dizem-me que ganhava o suficiente durante três meses para se aguentar no resto do ano, ainda que, no resto do ano, continuasse a andar de guitarra a tiracolo pelos bares do Norte, alguns hotéis, casas de fados. Mas Arnaldo não era fadista propriamente dito, tinha um sentido prático da vida que aliava a uma indecifrável marginalidade. Era um Jorge Palma de segunda divisão, um Bob Dylan em início de carreira com o azar de ter nascido numa ladeia refundida de um país refundido. O tempo trouxe-lhe algum juízo, ofereceu-lhe experiência e aprendizagem, a suficiente para ter aberto a pestana e pôr-se a andar daqui para fora. Quando zarpou, se bem sei, já andava nos trinta anos de vida (ou perto). Graças a ele, li alguns livros de boa memória. Assim que me lembre, o Molero de Machado ou os Bons Malandros do Zambujal. Mas de todos os livros que me aconselhou em noites de cabeleira, O Mundo dos Outros é, talvez, aquele que mais me influenciou. Depois de se ter metido na alheta, o mundo de Arnaldo cumpriu-se como jardineiro em mansões abastadas nos arredores de Londres. Amealhou algumas libras, mas o negócio faliu-lhe quando foi apanhado em flagrante com uma das patroas. Conta-se, mas o que se conta nem sempre confirma a verdade dos factos, que a milf gostava que ele lhe cantasse em português enquanto a penetrava. O que lhe cantava Arnaldo não sabemos. Depois dos jardins, partiu para os barcos. Andou nessa vida durante, pelo menos, dez anos seguidos. Os barcos eram microcosmos em trânsito, um melting pot flutuante onde tudo podia acontecer. E de tudo aconteceu a Arnaldo durante esses dez anos. Conheceu uma mexicana por quem se apaixonou. Ela não podia viver sem ele, ele não podia viver sem ela, mas isto foi até ela ter conhecido um irlandês e ele ter caído nos braços de uma velha francesa cheia de francos até às orelhas. Graças ao negócio, comprou uma guitarra nova e foi promovido a solista do bar no barco onde anteriormente fazia camas, servia à mesa, satisfazia viúvas desesperadas. Depois conheceu uma angolana que vivia muito deprimida com a distância da família. O marido estava longe, a filha de quatro anos também, ela não podia viver sem eles. Mas foi vivendo, e Arnaldo consolava-lhe as ausências com muito amor e carinho, a ponto de ela ter sugerido divorciar-se para fazer vida com Arnaldo. Chegado o amor a estes trâmites, Arnaldo voltou-se para uma venezuelana e deixou a angolana em terra enquanto a vida singrava nos barcos do amor. Depois da venezuelana houve uma brasileira, à brasileira seguiu-se uma canadiana, transformações atmosféricas radicais, de climas tropicais a tépidas praias desertas, destas à savana africana, daqui às florestas húmidas do oriente. Arnaldo só esquecia os amores quando parava para defender as cores nacionais nos campeonatos de bebedeira organizados entre a tripulação dos navios. Dizia, com algum orgulho, que os portugueses só haviam perdido duas vezes: uma, para os sul-africanos; outra, para os australianos. De resto, não havia ninguém que nos batesse na maratona dos copos, nem mesmo irlandeses ou alemães, que têm mais fama do que talento nessa arte secular de equilibrar o corpo na ponta do gargalo. A vida de Arnaldo foi correndo sobre águas. Tudo mudou quando lhe chegou a notícia de que ia ser pai. À época, ele andava enrolado com uma tipa do leste. Nunca chegou bem a saber de onde ela era, mas ele dizia que ela era ucraniana. Pouco importa para o caso. Não era ela quem transportava a semente de Arnaldo no ventre, mas sim uma grega de uma ilha qualquer cujo nome também não ficou para a história. Arnaldo viu-se grego com a situação, mas o que estava feito, feito estava, mesmo que o filho não fosse dele, de nada adiantaria contradizer a grega, que até lhe parecia de confiança. O mais curioso é que a grega nem levantou ondas. Já bastavam as do alto mar, os enjoos, o vómito. As águas agitadas do amor com a grega, tinham dado lugar a uma mansidão apenas comparável, perdoem-me a falta de recursos, às águas quase paradas da baía de São Martinho do Porto. Acontecia que agora era Arnaldo quem já não podia viver sem o filho, tão afeiçoado que ficara à ideia da paternidade. Não podia, mas teve que. À primeira oportunidade a grega pôs-se a milhas, deixando Arnaldo morto de raiva, morto mesmo, literalmente. Nunca mais tocou guitarra, largou os barcos, regressou à aldeia Natal, onde ainda ontem o vi a esmagar formigas com as pontas dos dedos.

AUTUMN LEAVES


Para a Poesia Incompleta
pelo primeiro aniversário


A que horas começa o Inverno? Tenho que me precaver atempadamente, os meteorologistas avisam que será um Inverno rigoroso. A que horas começará? Tenho de arranjar um agasalho, abastecer-me de provisões, pegar num machado, partir a lenha. Mas antes, preciso de algo mais: um calendário, um relógio que me diga a que horas começa o Inverno.

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

HÁ-DE CHEGAR O DIA

− Tem tela?

AINDA 2666

Os tradutores de 2666 reagiram ao texto que escrevi sobre o livro para o Rascunho. Deixo também aqui a minha resposta:

Caros tradutores,
fui alertado para a vossa reacção no passado dia 22. Por manifesta falta de tempo, respondo agora, tanto quanto me é possível, às questões levantadas no vosso comentário. Primeiro, quero esclarecer que em nenhum momento o meu texto pretende fazer uma crítica demolidora à tradução de 2666. Reafirmo que «a primeira edição portuguesa de 2666 (Quetzal, Setembro de 2009) apresenta vários problemas de tradução e é uma calamidade no que se refere à revisão». Antes de enumerar algumas falhas que me parecem justificar esta leitura, permitam-me rebater o tom moralista que o final do vosso comentário sugere. Eu digo, no meu texto, que 2666 oferece «um retrato violentíssimo do mundo que chega a ser fastidioso n’A Parte dos Crimes, com a descrição de dezenas de assassínios de mulheres, quando não hilariante nos detalhes cruéis que impelem o leitor para um abismo de desolação». Esta hilaridade é óbvia, por exemplo, no anedotário exibido entre as páginas 634 e 636 ou, para não ir mais longe, no humor negro muito particular da passagem que a seguir transcrevo:


«Houve um polícia, no entanto, que disse que uma violação completa era a que se fazia pelos cinco canais. Interrogado sobre quais eram os outros dois, respondeu que eram as orelhas. Outro polícia disse que ele tinha ouvido falar de um tipo de Sinaloa que violava pelos sete canais. Quer dizer, pelos cinco conhecidos, mais os olhos. E outro polícia disse que ter ouvido falar [sic] de um tipo da Cidade do México que violava pelos oito canais, que eram os sete já mencionados, os sete clássicos, digamos, mais o umbigo, onde o tipo da Cidade do México fazia uma incisão não muito grande com a sua faca e depois metia a verga nela, embora, é claro, para fazer isso fosse preciso já estar passado dos carretos.»


Vamos, então, às dúvidas levantadas pela versão portuguesa. É importante ter em conta que a lista que se segue não é exaustiva, mas sim a possível a alguém que não vive disto, não é pago para escrever sobre livros nem para rever traduções, paga os livros que quer ler e dá-se ao gozo de partilhar as suas leituras:
p. 33: «…e tinha sido ele, o suábio, quem o tinha ido esperar à estação e o que o havia levado à pensão…»;
p. 36: «…esculpido num peça única de mármore negro…»;
p. 39: «Quando vim trabalhar para cá já há muito tempo que Archimboldi tinha desaparecido.» (não ficaria melhor uma vírgula entre o cá e o já?);
p. 52: «Quando, por fim, chegou à janela e conseguiu abri-la, sentiu que estava ficar enjoado…»;
p. 53: «A certeza porém foi que nem Pelletier nem Espinoza visitaram Norton no seu quarto nem uma única vez…» (o último nem não estará a mais?);
p. 81: «…pensava naquele que julgava ser o último romance de Archimboldi e em que se tivesse razão…» (o em não será dispensável?);
p. 89: «Os enfermeiros ingleses falavam aos gritos, apesar de o som dos seus vozeirões lhes chegar em surdina.» (não será “apesar do”?);
p. 100: «…não para o mar nem para a para a praia a transbordar.»;
p. 105: «…acabaria por se suicidar, porque sim, gratuitamente, aturdidamente, porque não?» (é discutível, mas parece-me que “por que não?” ficaria melhor);
p. 105: «Quando chegaram, o filho estava a ver a televisão… (não estaria simplesmente a ver televisão?)»
p. 106: «A resposta dela pareceu-lhe conter uma certa dose de agressividade, mas depois lembrou-se que de Vanessa era assim.»;
p. 144: «Entrou em contacto com a obra de Archimboldi, se bem se lembrava, aos vinte anos, nessa altura tinha lido, em alemão e ido buscar os livros emprestados a uma biblioteca de Santiago…» (será esta pontuação a melhor?);
p. 203: «Amalfitano recebeu a carta seguinte vinda de San Sebastián. Nela Rosa contava-lhe que tinha ido com Imma ao manicómio…» (a carta não fora escrita por Rosa);
p. 214: «…sem esperança alguma de ver o poeta mas sim, quanto muito, algum sinal…» (quando muito);
p. 222: «Não, não é meu, disse Rosa, de certeza que não, a verdade é a primeira vez que o vejo.» (na verdade?);
p. 227: «…e depois havia a chuva, o vento, a páginas a voarem…»;
p. 234: «…individualmente os italianos era corajosos.»;
p. 234: «…Amalfitano fechava os olhos e tentava recordar uma imagem do pai qualquer, inutilmente.» (uma qualquer imagem do pai?);
p. 237: «…as pessoas que as têm não param de se coçar, com é lógico.»;
p. 275: «Quando já tinha pagado e se preparava para sair um tipo que trabalhava no desporto chamou por ele e convidou-o a beber uma cerveja.» (não faltará aqui uma vírgula?);
p. 287: «Depois à mulher cresciam-lhe pernas de madeiras e braços de arame e uma língua feita de ervas e plantas trançadas.»;
p. 330: «…como se estivesses a contar uma história num bar e todos o que estão à tua volta fossem teus amigos…»;
p. 339: «Antes de a manifestação começar a dispersar…» (antes da?);
p. 353: «- Parecem tubos – comentou Fate da porta aberta da recepção» (falta um ponto final);
p. 377: «…para que Fate viesse que ele não levava arma…» (visse);
p. 379: «Fate aquiesceu em silêncio. Quando Rosa se fechou na casa de banho pôs-se a pensar em tudo o que tinha acontecido naquela noite e doeu-lhe o estômago. Sentiu uma onda de calor a subir-lhe à cara. Sentou-se na cama, tapou a cara com as mãos e pensou que se tinha comportado como um estúpido.» (hmmmmm, a quem é que doía o estômago?);
p. 382: «…fornicar com um polícia é como se uma montanha te fodesse e foder com um traficante é como fosse o ar a fornicar-te.» (como se fosse?);
p. 385: «…ele gostava de dizer palavras indecentes e proferir insultos durante o orgasmo, mas não contra ela, mas contra pessoas indeterminadas, fantasmas que…» (o segundo mas não estará a mais?);
p. 394: «…o recepcionista desatou a rir e disse-lhe que já sabia aonde é que ele queria chegar…» (neste caso, não será mais correcto dizer onde em vez de aonde?);
p. 396: «Queria saber se senhor era nosso hóspede.» (se o senhor?);
p. 399: «…vestido com umas calças e um casaco ganga saiu do Peregrino…» (de ganga?);
p. 421: «Há uma catrafada de anos, disse ela, a rir-se.» (não vou insistir, mas procurei em 6 dicionários diferentes e em nenhum deles aparece catrafada. Será um termo em desuso? Catrefada parece-me mais correcto);
p. 437: «Por momentos, enquanto varria, o padre falou e falou: da cidade, da pingar constante…»;
p. 438: «E tu, além de ser jornalista, que outras coisas fazes…» (de seres?);
p. 449: «A descoberta foi feito por um dos vendedores.»;
p. 454: «…nada tinha a ver com os assassínios…» (segundo sei, manda a sintaxe portuguesa que se diga “tinha que ver” );
p. 471: «…da primeira a aproximar-se dela e da segundo…»;
p. 480: «…mas quase todo a gente a conhecia…»;
p. 487: «…punha-se a pensar em quão gostaria de saber mais coisas…» (não estará mal, mas soa francamente mal. Prefiro “o quanto”.);
p. 491: «Pediu seis de de carnita, três com molho…»;
p. 492: «…e o vento fizesse com ela o lhe apetecia.»;
p. 500: «…eu viu a testa dela cheia de rubis…»;
p. 502: «Ela tinha medo de falar, pois às vezes a primeira coisa que a possessão se agarrava era a língua.» (a que a possessão se agarrava?);
p. 511: «O Asuntos Internos ainda não encerrara quando ele chegou…» (não sei se o Asuntos foi opção, mas “os Assuntos Internos” parece-me melhor);
p. 519: «…a certeza que ele nunca mais voltaria a seria visto na cidade.»;
p. 527: «Eu acho que os homens deviam ser circuncidados aos vinte e um anos, se quiserem, e se não quiserem…» (se quisessem?);
p. 531: «E outro polícia disse que ter ouvido falar de um tipo da Cidade do México que violava pelos oitos canais…» (o “que” não estará a mais?);
p. 532: «O cadáver escondeu-o num armário.» (hmmmmmm, isto soa-me estranho);
p. 541: «…não acredito nem uma palavra do que me dizes…» (nem uma ou nem numa?);
p. 554: «O ranchero, que tinha o sonho leve, disse-lhe que deixasse de fazer barulho e adormecesse.»; (o sonho ou o sono?)
p. 555: «Como ele não consegue dormir, não respeita o sonho de ninguém…» (idem);
p. 586: «O corpo, de a uma mulher…»;
p. 603: «…realização do axame vaginal…»;
p. 617: «…não acreditava que a corrupção de agora fosse maior do aquela que houvera…»;
p. 626: «…no estilo dos de Poenix.» (Phoenix?)
p. 633: «..junto de umas das suas janelas…» (umas ou uma?);
p. 638: «…(que morreria fuzilado acusado de cobardia em 1915)…» (não falta uma vírgula?);
pp. 642 a 645: Michele Sánchez Castillo é Michel por duas vezes;
p. 668: «…pelo menos isso diziam isso…» (o primeiro isso está a mais);
p. 675: «…e depois disse que sim, que, sim, era.» (não sei como aparece no original, mas talvez possa estar aqui uma vírgula a mais, talvez não);
p. 683: «…que depois deitariam foram…» (fora);
p. 723: «Em também estive em casa dele…» (eu);
p. 733: «…o espelhos dos ingleses…»;
p. 748: «…e em frequente ocasiões…»;
p. 750: «..o quais pareciam cegos…»;
p. 795: «…depois de os dois carros…» (depois dos?);
p. 801: «- Exacto – exacto a rapariga -, uma pedra…» (desconfio que o segundo exacto esteja inexacto);
p. 815: «…desde tempo imemoriais…»;
p. 815: Tosltoi (Tolstoi?);
p. 822: «Considerações sobre a Morte de Evguenia Bosh» (Bosch?)
p. 827: «A noite e a passagem das estrelas pela abóbada celeste paracem intermináveis.» (parecem);
p. 829: Tosltoi (Tolstoi?);
p. 845: «…viu-a sair e dirigir-se juntamente com os outros judeus de Kostekino para aonde a aguardava a disciplina alemã..» (para onde?);
p. 858: «Ao fim de três meses foi a vez de aqueles cujos apelidos começavam por Q…» (daqueles?);
p. 864: «- Mas eu não administro de um campo de judeus…»;
p. 884: «…antes de a cidade ter…» (antes da?);
p. 902: «…pouco são os escritores…»;
p. 905: «…com todo a panóplia…»;
p. 918: «…durante todos aquele tempo…»;
p. 929: «…antes de a porta se abrir…» (antes da?);
p. 944: «…que não realidade não conhecia…»;
p. 1008: «…sem perder nem um mais um minuto»;
p. 1022: «No México Lotte ficou ainda permaneceu mais um bocado com o telefone colado à orelha.» (?)

Dito isto, estou certo de que o vosso trabalho foi esforçado e sério. A obra é imensa e, certamente, de tradução difícil. Não estou tão certo da honestidade dos ecos que vos chegaram por parte de outros críticos. Digo outros, pegando nas vossas palavras. Pois crítico é coisa que não sou.

UMA POBREZA

Vendeu três casas e um jipe, alguns quadros e esculturas, deixou de viajar e de comprar pintura. Sete anos depois do início do escândalo de pedofilia, Carlos Cruz, que chegou a ser um dos homens mais bem pagos da televisão portuguesa e a acumular contratos de publicidade, vive hoje da reforma, cerca de 3100 euros. (in Correio da Manhã)

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL

A vida corria-lhe mal, não tinha dinheiro, estava só no mundo, resolveu cortar os pulsos. Mas como conseguiria ele cortar os pulsos se não tinha braços? Resolveu, então, enfiar a cabeça dentro de um forno a gás. Ironia do destino, cortaram-lhe o gás precisamente quando enfiou a cabeça dentro do forno. Restava-lhe uma hipótese, saltar da varanda de casa. Fora de questão. Vivia num rés-do-chão. O desespero era cada vez maior, mas há sempre uma saída. Aquela luz ao fundo do túnel… eram os faróis de um camião guiado por um camionista embriagado.

HARAKIRI

Hōjō Ujinao não tinha estômago para o harakiri. Tentou-o pelas costas. Depois de várias facadas, continuou sem morrer. Sentiu-se imune ao harakiri. Certo dia, ao caminhar debaixo de um céu de tempestade, um raio atingiu a lâmina de uma faca espetada nas costas de Hōjō Ujinao. Morreu electrocutado.

OBSESSIVO-COMPULSIVO

O obsessivo-compulsivo queria matar-se. Comprou uma pistola e um estojo de limpeza para o efeito. Começou a limpar a arma, espreitou-lhe o cano, pareceu-lhe sujo, continuou a limpá-lo, a sujidade não desaparecia, limpou, limpou, limpou, obsessivamente, compulsivamente, e o cano parecia-lhe sempre sujo por dentro, conspurcado, imundo, sebento, repugnante, asqueroso. O obsessivo-compulsivo morreu de ataque cardíaco a tentar limpar o cano da pistola.

HOW RIDICULOUS THEY ARE



Os intelectuais soen muy ben zurrar
na literatura na poesia: no café
Ai how ridiculous ridiculous they are
é verdade ou não, Lord Byron, é ou não é?
Nas pastelarias nas igrejas no café
ai sobretudo sobretudo no café
é verdade ou não é, Lord Byion, é verdade ou não é?
Ai how ridiculous they are
zurrar o sabem no da fror
tempo em que as burras muito hão-de ganhar
como é de D. Dinis (com modificações) o teor



António Gancho, in O Ar da Manhã, Assírio & Alvim, Junho de 1995, p. 16.

CRYING


Caminho para o despassado, desenho o teu rosto na humidade dos vidros, fico a olhá-lo enquanto os contornos se desfazem em água, como se o vidro chorasse, como se um rosto fosse apenas uma vasilha de lágrimas.