quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009
POESIA PARA ADORMECER:
quatro carneirinhos passam-no por cima
do primeiro número
no número dois, dois carneiros velhos
convencem uma ovelha que o quatro é ali
e ela não se mexe enquanto eles a lambem
no número três entra o sonho de dois carneiros
bastante humanos
no número quatro notou-se a falta de uma porca,
essa ovelha, todos a conheciam, todas a haviam visto
no número cinco chove e um carneiro cobre
a sua amada com os olhos molhados de emoção
no número seis anda tudo com as patas cheias de lama
e na realidade o homem instintivamente desvia a mão
da mulher
no número sete uma ovelha olha a mulher nos olhos
até os lençóis de lã serem atirados para trás
no número oito grita um mémé perdido e de cabeça
molhada
no número nove um carneiro tropeça e acende-se
a luz da cama
no número dez alguém se esqueceu de lavar os dentes,
de acordar virado para o mesmo lado, de dormir
no número onze há finalmente espaço para pernas
abertas e um carneiro a sério
Nuno Moura, in Os Livros de Hélice Fronteira, Regina Neri, Vasquinho Dasse, Ivo Longomel, Adraar Bous, Robes Rosa, Estevão Corte e Alexandre Singleton, Mariposa Azual, Abril de 2000, pp. 64-65.
RUA MARQUÊS DE RIO MAIOR
UM TU ABSTRACTO
terça-feira, 1 de Dezembro de 2009
M DE DESEJO
Vinha nas curvas e contra-curvas do regresso, com o bafo a formar estranhas formas no vidro dianteiro e a música dos Lambchop a servir-me de almofada, quando me ocorreu uma certeza: podia morrer a ouvir Lambchop que morreria feliz. Não será o caso, pois claro. Depois de oito horas seguidas de livraria, ainda encontrei forças para passar pela casa do Fonseca. O Pedro vai testar a Filosofia e precisava de uma força, de um motivo. Falámos de problemas, teses, teorias, argumentos e contra-argumentos enquanto eu, fazendo-me pagar num conhaque calibre 7,62mm, recordava os meus queridos ex-alunos com a nostalgia parva dos caçadores de letras. Se não sabem o que é um caçador de letras, visitem o Parque D. Carlos I num domingo à tarde. Finda a explicação, fiz-me ao caminho. Esperava-me uma família inteira à volta de uma mesa, picanha, vinho tinto, Macieira, o juízo em dia, conversas, actualidade, 66 anos de vida, a mãezinha. Ela diz-me que quando me pariu ficou com uma dor de queixos insuportável, de tanta força ter feito para me pôr no mundo. Eu fui sempre uma trabalheira, logo à nascença 5kg300g de gordura abjecta, um chorinho contido ainda hoje retraído nas ventas da gargantilha, uma morna, um funáná, uma despesa, a música dos Lambchop de regresso a casa. Mas antes, os olhos húmidos da minha irmã comunicando-me dos tumores na cadela aninhada da minha Lisboa perdida. Foram bons tempos. Eu chegava do Bairro e a Bianca saltava-me para o colo, voltava o focinho ao meu bafo alcoólico, enroscava-se-me no pernil trémulo enquanto eu recorria aos versos de Rilke para explicar ao meu mundo que a vida não tem que ter uma chuva miudinha, um bafo desenhado no vidro da memória, os pára-brisas avariados das olheiras. Se não percebem o que vos digo, experimentem visitar o Parque D. Carlos I num domingo à tarde. Adiante. Invejo os olhos húmidos da minha irmã, não porque os meus sejam menos húmidos que os dela, mas porque são mais fundos, a lágrima demora mais tempo a vir à superfície, tem de percorrer uma distância imensa entre o coração e a maçã do rosto, mas quando chega, valha-nos deus, nem pára-brisas remedeiam o sal do sangue, nem barragens de indiferença estorvam o caudal. Foi o que sucedeu, com a música dos Lambchop a servir-me de almofada, uma lua cheia insinuando-se entre nuvens finas de um céu denso, pingos de angústia caindo sobre o caminho, a lembrança fazendo-me crer que há uma mosca, um insecto, a corromper a funérea sensação de estar quite. Que digo eu? Visitem o Parque D. Carlos I num domingo à tarde, foda-se, metam os Lambchop a tocar nas armaduras do desejo, pensem que sim, que esta semana foi muito importante porque a filha aprendeu a primeira letra de um nome inteiro, Matilde, M, Morte, Maravilha, M, Maçã, M, desejo, M de desejo, diz-lhe o pai e ela fica com aquele ar atento das avestruzes e reclama: desejo não tem M. Enganas-te, filha, desejo tem M de música, e eu sou o teu som neste preciso momento, o teu acorde argumentativo, a tese que contradirás um dia com pouco mais que uma ideia, uma imagem, os olhos de quem passou anonimamente por aqui à procura de não sei bem o quê porque eu nada tenho a oferecer ao mundo, eu sou um traste, uma desgraça, eu sou a melodia agoniada dos dedos cansados, um impulso, a literatura cansada das pedras e eles, filha, eles serão os génios que farão da nossa morte vida, eles são os sábios que farão diamantes da nossa areia ressequida, eles são os mestres que um dia vencerão de nos verem derrotados e sós e nós, filha, nós seremos os olhos húmidos da tia vindo à superfície de um rosto, nós seremos apenas uma coisa que por aqui passou e que ninguém saberá como por aqui se aguentou por nunca terem, eles, filha, por nunca terem experimentado como nós experimentámos visitar o Parque D. Carlos I num domingo à tarde.
segunda-feira, 30 de Novembro de 2009
POSTO DE INFORMAÇÕES
ELOGIO DO CINISMO (9)
Longe daquilo que, numa dada época, pôde caracterizar uma esquerda dita «caviar», sobre a qual ainda se procura saber o que fazia dela uma esquerda, quando já não existem mais dúvidas sobre as razões e a existência da sua intoxicação ao beluga, um pensamento libertário, infundido por uma mística de esquerda, pode muito bem funcionar no registo artístico. Como prova, para além de Roger Vailland, as páginas soberbas escritas por Oscar Wilde, sob o título A Alma do Homem sob o Socialismo ─ um livro de plena actualidade, após um século de existência ─ ou, mais inesperado, um almoço que aproximou, nas primeiras semanas de 1849, Baudelaire e Proudhon, numa pequena loja de pronto a comer da Rua Neuve-Vivienne. Um olhar ao sistema das contradições económicas, outro para saborear as flores do mal ou provar os paraísos artificiais, tendo o conjunto por desígnio o que Séverine chamava, no século passado, um dandismo revolucionário ─ esta mistura não deixa de me agradar.
A opção libertária, não tendo a obrigação de operar ao lado da compaixão no seu registo cristão, não me parece legítimo que para se ser credível se tenha de ser pobre ou despojado de si próprio, pois os detractores diriam, então, que o comprometimento político seria motivado por um ajuste de contas pessoal ou pelo ressentimento, no que encontrariam novos motivos para o descrédito que tanto procuram. Dandismo e pensamento libertário funcionam às mil maravilhas em todos aqueles que, longe dos imperativos do realismo socialista, em virtude do qual é necessário submeter a arte à política, postulam exactamente o inverso e esperam da arte que ela dê forma ao político, que o alimente, que lhe transmita força, vigor e energia. Nessa perspectiva, o dandismo contemporâneo do século da revolução industrial pode ler-se como reacção contra a unidimensionalidade gerada pela metamorfose do capitalismo.
Contra o igualitarismo, essa religião nociva da igualdade, o dandismo reivindica uma subjectividade radical activa, no combate contra todas as palavras de ordem do momento: culto do dinheiro e da propriedade, dogmas burgueses e mitologias de família, economia sensata dos casais e consumo da imprensa como única referência intelectual, cultural, de tudo o que constitui a tonalidade da época. Baudelàire afirma e exibe uma furiosa independência de espírito, uma animosidade particular em relação aos burgueses, venham eles de onde vierem, da esquerda ou da direita. Professa o culto do inútil e do artifício, do lazer e do gratuito, onde a maioria se esgota no útil, no rentável, no trabalho, na renda.
O dandy procura o sublime. A política libertária aspira ao mesmo tipo de objectivo: a assunção do indivíduo artista reage contra a queda dos particulares nos «bas-fonds» onde triunfam as virtudes e os valores burgueses. O poeta contra o farmacêutico, o pintor como remédio à frouxidão da vida moderna, o escritor à laia de resposta às infâmias induzidas pela industrialização e pela era da reprodução mecânica dos objectos, dos homens, das obras de arte ─ pensemos nas imprecações do poeta sobre a fotografia ─ ou das individualidades. Na época do reproduzível, todos são pensados, desejados e construídos segundo o mesmo padrão. O dandismo teoriza a reivindicação de garantias, multiplicadas pela expressão da individualidade e pela soberania das monadas.
O dandismo revolucionário, formulado por Séverine, não supõe a comunhão nalgum outro pecado venal, por vezes mortal, cometido por aqueles que estremecem não muito longe da mística de esquerda: o dever de amar o povo, a obrigação abjecta de celebrá-lo, de lhe conceder ou emprestar méritos, pois uma vista de olhos retrospectiva sobre a História deveria dissuadir a prática desse entusiasmo tão perigoso quanto nefasto, fornecedor, em cada ocasião, dos gregarismos políticos, do estalinismo ao nazismo, passando pelas fórmulas europeias de um nacional-populismo declinado nos registos italiano, espanhol, francês, grego e da Europa de Leste. Não há nada mais devoto para com o povo que as declarações de Lenine, Estaline, Hitler, Pétain, Mussolini, Franco, Le Pen e tantos outros, cuja fabulação sobre este universal das suas contas se alimenta do esquecimento e da negligência dos indivíduos, únicos princípios ou unidades operatórias em matéria de política. O dandy prima na farmacopeia que se opõe ao homem das multidões.
Michel Onfray, in A Política do Rebelde – Tratado de Resistência e de Insubmissão, trad. Carlos Oliveira, Instituto Piaget, 1999, pp. 194-196.
ARTUR
O presente é uma coisa estranha, anda sempre atrás de nós. E já ali estava, olha para ele, no regresso, quando voltámos do Verão cheios de trabalhos, uma tese, talvez sobre Heidegger, e eu desesperadamente concentrado no ser para a morte quando sempre quis ser apenas para a vida. Merda para o Heidegger, dizias. Mas a culpa não era do filósofo alemão, não tanto como era de um semestre inteiro a ouvir o César das Neves especular sobre a melhor tradução para dasein. Eu bem lhe tentei explicar, mas ele não me deu ouvidos. Dasein é o Artur a ser lembrado daqui a, sei lá, 13 anos, é o sorriso do meu amor comovido com a leitura de um texto que hei-de então escrever, é eu para a vida enquanto ao fundo da estante a figura de Nietzsche se cola à sombra de Sócrates com a Janis Joplin a fumar um charro de premeio. Dasein, ó senhor professor, é tomar banho debaixo de um chuveiro balde enquanto o Artur me lambe os pés e os pinheiros abanam ao vento da nossa alegria. Chumbei.
OS ESCRIBAS
Se eram excelentes eram também petulantes
e de um trato tão espinhoso como o azevinho
de que extraíam a tinta.
E se nunca fui um deles também é certo
que nunca me puderam negar o meu lugar.
Na quietude do scriptorium
crescia neles a todo o tempo uma pérola negra
como o velho coágulo seco por dentro das penas.
À margem de textos laudatórios
arranhavam, esgadanhavam.
Rosnavam se o dia estava escuro
ou se giz a mais amolecera o vellum
ou giz a menos o deixara oleoso.
Sob os dorsos da caligrafia
arrebanhavam rancores míopes.
Sementes de ressentimento ponteavam-lhes
as espirais de fetos das maiúsculas.
De vez em quando eu tinha um sobressalto
a milhas de distância, e via na minha ausência
o cursivo inclinado de cada dorso, e sentia-os
a aperfeiçoarem-se contra mim, página a página.
Que se recordem deste contributo não desprezível
para a sua arte de invejas.
Seamus Heaney, in Da Terra à Luz – poemas 1966-1987, trad. Rui Carvalho Homem, Relógio D’Água, Janeiro de 1997.
QUEM TRABALHA É QUE SE LIXA
RUA DE SANTA BÁRBARA
ELEANOR RIGBY
Ao contrário do Luís, leio cada vez mais livros. A culpa é da tempestade que não anda nem desanda. Os raios ameaçam trovoada, mas os aguaceiros não vêm à terra limpar-nos as horas. Três episódios seguidos do House também não ajudam. É verdade que durmo pouco, sou um rapaz inquieto – só não peço desculpa por isso porque dizem que serve para criar coisas bonitas −, comovo-me com o Fernando Lemos numa cadeira de rodas lembrando-me de onde vim, quem sou, para onde não vou: Fiz uma rosa contemporânea /com um compasso/não cheira/nem sonho com ela//Fiz um sonho com duas linhas/mas não acordo/nem sinto os olhos//fiz um quadrado/com a rosa dentro/nas duas linhas//e estava escrito o meu desalento.
domingo, 29 de Novembro de 2009
RUA DAS FLORES
FADO
QUEM É O ASSASSINO?
O juiz que costumava julgar os processos-crime, disparou contra um corço no território grande da reserva. Depois de ter dado o tiro de misericórdia, disse assim:
─ A caça é a paixão mais nobre.
O procurador fazia colecção de borboletas. Furava com um alfinete os seus abdómenes e, quando já estavam mortas de asas abertas, pensava:
─ Assim é a sede de saber.
Quem escreve estas linhas e também a reportagem sobre um assunto de crime, é um adepto entusiástico do pólo aquático. Se algum jogador da sua equipa dá um pontapé no estômago do adversário, ainda o encoraja da tribuna.
─ O pólo aquático é um desporto duro ─ costuma dizer-se. E o que é que disse o assassino?
Não esteve com rodeios. Confessou, compungidamente, ter morto a mulher que o tinha traído com toda a gente, impelido a sua filha à desmoralização, arruinado a família inteira. Disse desanimado:
─ Sou um assassino.
Foi enforcado.
István Örkény, in Histórias de 1 minuto, vol. 1, trad. Piroska Felkai, 2.º tiragem, Cavalo de Ferro, Novembro de 2004, P. 123
SAPPY
Trazem-nos chá com torradas, doce de tomate. O que penso disso? Não penso nada. As caves onde andávamos aos encontrões fingindo que dançávamos foram todas transformadas em salões de chá, agora é proibido fumar e respirar mata, passeamos os olhos por centenas de canais. Alguns jovens têm um ar muito sério e respeitável, querem ser clones dos pais enquanto os pais os colonizam. Outros fumam drogas, roubam carros, passam horas no ginásio a enrijecer os músculos com que defenderão as damas dos rivais. Mal sabem elas que o mais provável será, dentro de anos, servirem de saco àqueles músculos. Sobre assuntos destes fazem-se estatísticas. O que penso disso? Não penso nada. Bebo um chá e como torradas.
CARAPAUS GRELHADOS
MEDITAÇÃO
sábado, 28 de Novembro de 2009
PROVÉRBIO
QUE SABEMOS NÓS
Que sabemos nós das dores de cada um?
sabemos dum rio dum pomar duma flor
dum pássaro morto na primavera
e tudo isso escrevemos num poema
─ mas das dores de cada um que sabemos nós?
dos homens anónimos que viajam na solidão dos eléctricos
dos meninos que amanhecem mortos
junto aos muros das grandes cidades que sabemos nós?
sabemos dum nome que o jornal traz todas as manhãs
mas dos homens que vendem os jornais que sabemos nós?
sabemos acaso como doem as suas lágrimas no silêncio
quando a tarde é uma pedra de melancolia
caindo sobre os ombros?
ah tudo isso escrevemos num poema
mas de tudo isso que sabemos nós?
quando as luzes se acendem na cidade
e a noite é uma lágrima
que sabemos nós do desespero das mãos vazias
dos olhos que não vêem mais que a noite
para além duma janela sem cortinas?
ah tudo isso escrevemos num poema
mas dos que ficam para contar aos que vierem
das suas dores na madrugada
e da esperança que a noite trará um dia às suas mãos vazias
e aos seus olhos que não vêem mais que a noite
para além duma janela sem cortinas que sabemos nós ?
─ ah tudo isso escrevemos num poema.
Luís Pignatelli, in Obra Poética 1953-1993, &etc., Maio de 1999, pp. 23-24.
ANTES AGORA
A SOLIDÃO E O SONHO
UM CASAL
POST-SCRIPTUM
sexta-feira, 27 de Novembro de 2009
DESNASCER
Ainda ontem de madrugada, enquanto festejávamos um ano de buliço, eu confessava aos meus camaradas de serviço que só guardo uma frustração na vida: não ter estudado música. Ainda vais a tempo, disseram eles. Claro que sim, embora já seja tarde para ir a tempo. Independentemente disso, estas fotos deixam-me numa alegria infantil que vossas excelências nem imaginam. (Novamente AQUI)
RAIVA
AUTUMN LEAVES
Para a Poesia Incompleta
pelo primeiro aniversário
A que horas começa o Inverno? Tenho que me precaver atempadamente, os meteorologistas avisam que será um Inverno rigoroso. A que horas começará? Tenho de arranjar um agasalho, abastecer-me de provisões, pegar num machado, partir a lenha. Mas antes, preciso de algo mais: um calendário, um relógio que me diga a que horas começa o Inverno.
quinta-feira, 26 de Novembro de 2009
AINDA 2666
Caros tradutores,
fui alertado para a vossa reacção no passado dia 22. Por manifesta falta de tempo, respondo agora, tanto quanto me é possível, às questões levantadas no vosso comentário. Primeiro, quero esclarecer que em nenhum momento o meu texto pretende fazer uma crítica demolidora à tradução de 2666. Reafirmo que «a primeira edição portuguesa de 2666 (Quetzal, Setembro de 2009) apresenta vários problemas de tradução e é uma calamidade no que se refere à revisão». Antes de enumerar algumas falhas que me parecem justificar esta leitura, permitam-me rebater o tom moralista que o final do vosso comentário sugere. Eu digo, no meu texto, que 2666 oferece «um retrato violentíssimo do mundo que chega a ser fastidioso n’A Parte dos Crimes, com a descrição de dezenas de assassínios de mulheres, quando não hilariante nos detalhes cruéis que impelem o leitor para um abismo de desolação». Esta hilaridade é óbvia, por exemplo, no anedotário exibido entre as páginas 634 e 636 ou, para não ir mais longe, no humor negro muito particular da passagem que a seguir transcrevo:
«Houve um polícia, no entanto, que disse que uma violação completa era a que se fazia pelos cinco canais. Interrogado sobre quais eram os outros dois, respondeu que eram as orelhas. Outro polícia disse que ele tinha ouvido falar de um tipo de Sinaloa que violava pelos sete canais. Quer dizer, pelos cinco conhecidos, mais os olhos. E outro polícia disse que ter ouvido falar [sic] de um tipo da Cidade do México que violava pelos oito canais, que eram os sete já mencionados, os sete clássicos, digamos, mais o umbigo, onde o tipo da Cidade do México fazia uma incisão não muito grande com a sua faca e depois metia a verga nela, embora, é claro, para fazer isso fosse preciso já estar passado dos carretos.»
Vamos, então, às dúvidas levantadas pela versão portuguesa. É importante ter em conta que a lista que se segue não é exaustiva, mas sim a possível a alguém que não vive disto, não é pago para escrever sobre livros nem para rever traduções, paga os livros que quer ler e dá-se ao gozo de partilhar as suas leituras:
p. 33: «…e tinha sido ele, o suábio, quem o tinha ido esperar à estação e o que o havia levado à pensão…»;
p. 36: «…esculpido num peça única de mármore negro…»;
p. 39: «Quando vim trabalhar para cá já há muito tempo que Archimboldi tinha desaparecido.» (não ficaria melhor uma vírgula entre o cá e o já?);
p. 52: «Quando, por fim, chegou à janela e conseguiu abri-la, sentiu que estava ficar enjoado…»;
p. 53: «A certeza porém foi que nem Pelletier nem Espinoza visitaram Norton no seu quarto nem uma única vez…» (o último nem não estará a mais?);
p. 81: «…pensava naquele que julgava ser o último romance de Archimboldi e em que se tivesse razão…» (o em não será dispensável?);
p. 89: «Os enfermeiros ingleses falavam aos gritos, apesar de o som dos seus vozeirões lhes chegar em surdina.» (não será “apesar do”?);
p. 100: «…não para o mar nem para a para a praia a transbordar.»;
p. 105: «…acabaria por se suicidar, porque sim, gratuitamente, aturdidamente, porque não?» (é discutível, mas parece-me que “por que não?” ficaria melhor);
p. 105: «Quando chegaram, o filho estava a ver a televisão… (não estaria simplesmente a ver televisão?)»
p. 106: «A resposta dela pareceu-lhe conter uma certa dose de agressividade, mas depois lembrou-se que de Vanessa era assim.»;
p. 144: «Entrou em contacto com a obra de Archimboldi, se bem se lembrava, aos vinte anos, nessa altura tinha lido, em alemão e ido buscar os livros emprestados a uma biblioteca de Santiago…» (será esta pontuação a melhor?);
p. 203: «Amalfitano recebeu a carta seguinte vinda de San Sebastián. Nela Rosa contava-lhe que tinha ido com Imma ao manicómio…» (a carta não fora escrita por Rosa);
p. 214: «…sem esperança alguma de ver o poeta mas sim, quanto muito, algum sinal…» (quando muito);
p. 222: «Não, não é meu, disse Rosa, de certeza que não, a verdade é a primeira vez que o vejo.» (na verdade?);
p. 227: «…e depois havia a chuva, o vento, a páginas a voarem…»;
p. 234: «…individualmente os italianos era corajosos.»;
p. 234: «…Amalfitano fechava os olhos e tentava recordar uma imagem do pai qualquer, inutilmente.» (uma qualquer imagem do pai?);
p. 237: «…as pessoas que as têm não param de se coçar, com é lógico.»;
p. 275: «Quando já tinha pagado e se preparava para sair um tipo que trabalhava no desporto chamou por ele e convidou-o a beber uma cerveja.» (não faltará aqui uma vírgula?);
p. 287: «Depois à mulher cresciam-lhe pernas de madeiras e braços de arame e uma língua feita de ervas e plantas trançadas.»;
p. 330: «…como se estivesses a contar uma história num bar e todos o que estão à tua volta fossem teus amigos…»;
p. 339: «Antes de a manifestação começar a dispersar…» (antes da?);
p. 353: «- Parecem tubos – comentou Fate da porta aberta da recepção» (falta um ponto final);
p. 377: «…para que Fate viesse que ele não levava arma…» (visse);
p. 379: «Fate aquiesceu em silêncio. Quando Rosa se fechou na casa de banho pôs-se a pensar em tudo o que tinha acontecido naquela noite e doeu-lhe o estômago. Sentiu uma onda de calor a subir-lhe à cara. Sentou-se na cama, tapou a cara com as mãos e pensou que se tinha comportado como um estúpido.» (hmmmmm, a quem é que doía o estômago?);
p. 382: «…fornicar com um polícia é como se uma montanha te fodesse e foder com um traficante é como fosse o ar a fornicar-te.» (como se fosse?);
p. 385: «…ele gostava de dizer palavras indecentes e proferir insultos durante o orgasmo, mas não contra ela, mas contra pessoas indeterminadas, fantasmas que…» (o segundo mas não estará a mais?);
p. 394: «…o recepcionista desatou a rir e disse-lhe que já sabia aonde é que ele queria chegar…» (neste caso, não será mais correcto dizer onde em vez de aonde?);
p. 396: «Queria saber se senhor era nosso hóspede.» (se o senhor?);
p. 399: «…vestido com umas calças e um casaco ganga saiu do Peregrino…» (de ganga?);
p. 421: «Há uma catrafada de anos, disse ela, a rir-se.» (não vou insistir, mas procurei em 6 dicionários diferentes e em nenhum deles aparece catrafada. Será um termo em desuso? Catrefada parece-me mais correcto);
p. 437: «Por momentos, enquanto varria, o padre falou e falou: da cidade, da pingar constante…»;
p. 438: «E tu, além de ser jornalista, que outras coisas fazes…» (de seres?);
p. 449: «A descoberta foi feito por um dos vendedores.»;
p. 454: «…nada tinha a ver com os assassínios…» (segundo sei, manda a sintaxe portuguesa que se diga “tinha que ver” );
p. 471: «…da primeira a aproximar-se dela e da segundo…»;
p. 480: «…mas quase todo a gente a conhecia…»;
p. 487: «…punha-se a pensar em quão gostaria de saber mais coisas…» (não estará mal, mas soa francamente mal. Prefiro “o quanto”.);
p. 491: «Pediu seis de de carnita, três com molho…»;
p. 492: «…e o vento fizesse com ela o lhe apetecia.»;
p. 500: «…eu viu a testa dela cheia de rubis…»;
p. 502: «Ela tinha medo de falar, pois às vezes a primeira coisa que a possessão se agarrava era a língua.» (a que a possessão se agarrava?);
p. 511: «O Asuntos Internos ainda não encerrara quando ele chegou…» (não sei se o Asuntos foi opção, mas “os Assuntos Internos” parece-me melhor);
p. 519: «…a certeza que ele nunca mais voltaria a seria visto na cidade.»;
p. 527: «Eu acho que os homens deviam ser circuncidados aos vinte e um anos, se quiserem, e se não quiserem…» (se quisessem?);
p. 531: «E outro polícia disse que ter ouvido falar de um tipo da Cidade do México que violava pelos oitos canais…» (o “que” não estará a mais?);
p. 532: «O cadáver escondeu-o num armário.» (hmmmmmm, isto soa-me estranho);
p. 541: «…não acredito nem uma palavra do que me dizes…» (nem uma ou nem numa?);
p. 554: «O ranchero, que tinha o sonho leve, disse-lhe que deixasse de fazer barulho e adormecesse.»; (o sonho ou o sono?)
p. 555: «Como ele não consegue dormir, não respeita o sonho de ninguém…» (idem);
p. 586: «O corpo, de a uma mulher…»;
p. 603: «…realização do axame vaginal…»;
p. 617: «…não acreditava que a corrupção de agora fosse maior do aquela que houvera…»;
p. 626: «…no estilo dos de Poenix.» (Phoenix?)
p. 633: «..junto de umas das suas janelas…» (umas ou uma?);
p. 638: «…(que morreria fuzilado acusado de cobardia em 1915)…» (não falta uma vírgula?);
pp. 642 a 645: Michele Sánchez Castillo é Michel por duas vezes;
p. 668: «…pelo menos isso diziam isso…» (o primeiro isso está a mais);
p. 675: «…e depois disse que sim, que, sim, era.» (não sei como aparece no original, mas talvez possa estar aqui uma vírgula a mais, talvez não);
p. 683: «…que depois deitariam foram…» (fora);
p. 723: «Em também estive em casa dele…» (eu);
p. 733: «…o espelhos dos ingleses…»;
p. 748: «…e em frequente ocasiões…»;
p. 750: «..o quais pareciam cegos…»;
p. 795: «…depois de os dois carros…» (depois dos?);
p. 801: «- Exacto – exacto a rapariga -, uma pedra…» (desconfio que o segundo exacto esteja inexacto);
p. 815: «…desde tempo imemoriais…»;
p. 815: Tosltoi (Tolstoi?);
p. 822: «Considerações sobre a Morte de Evguenia Bosh» (Bosch?)
p. 827: «A noite e a passagem das estrelas pela abóbada celeste paracem intermináveis.» (parecem);
p. 829: Tosltoi (Tolstoi?);
p. 845: «…viu-a sair e dirigir-se juntamente com os outros judeus de Kostekino para aonde a aguardava a disciplina alemã..» (para onde?);
p. 858: «Ao fim de três meses foi a vez de aqueles cujos apelidos começavam por Q…» (daqueles?);
p. 864: «- Mas eu não administro de um campo de judeus…»;
p. 884: «…antes de a cidade ter…» (antes da?);
p. 902: «…pouco são os escritores…»;
p. 905: «…com todo a panóplia…»;
p. 918: «…durante todos aquele tempo…»;
p. 929: «…antes de a porta se abrir…» (antes da?);
p. 944: «…que não realidade não conhecia…»;
p. 1008: «…sem perder nem um mais um minuto»;
p. 1022: «No México Lotte ficou ainda permaneceu mais um bocado com o telefone colado à orelha.» (?)
Dito isto, estou certo de que o vosso trabalho foi esforçado e sério. A obra é imensa e, certamente, de tradução difícil. Não estou tão certo da honestidade dos ecos que vos chegaram por parte de outros críticos. Digo outros, pegando nas vossas palavras. Pois crítico é coisa que não sou.
UMA POBREZA
LUZ AO FUNDO DO TÚNEL
HARAKIRI
OBSESSIVO-COMPULSIVO
HOW RIDICULOUS THEY ARE
Os intelectuais soen muy ben zurrar
na literatura na poesia: no café
Ai how ridiculous ridiculous they are
é verdade ou não, Lord Byron, é ou não é?
Nas pastelarias nas igrejas no café
ai sobretudo sobretudo no café
é verdade ou não é, Lord Byion, é verdade ou não é?
Ai how ridiculous they are
zurrar o sabem no da fror
tempo em que as burras muito hão-de ganhar
como é de D. Dinis (com modificações) o teor
António Gancho, in O Ar da Manhã, Assírio & Alvim, Junho de 1995, p. 16.
CRYING
Caminho para o despassado, desenho o teu rosto na humidade dos vidros, fico a olhá-lo enquanto os contornos se desfazem em água, como se o vidro chorasse, como se um rosto fosse apenas uma vasilha de lágrimas.

