Sábado, 2 de Junho de 2012


NÍQUEL

Somos constantemente perseguidos pelo arrependimento. Por vezes, voltamo-nos à espreita. Ouvimos-lhe os passos, vislumbramos-lhe a sombra, detemos a marcha e voltamo-nos, tentando confrontá-lo com a verdade. Mas ele resiste-nos, por mais que o julguemos inútil. Até porque sabe da nossa ignorância no que respeita aos domínios da verdade. Já nada podemos mudar do que passou, é certo. Só o futuro se concerta, maniatado pelos acidentes, pelos acasos, talvez até por uma dose generosa de destino. Alimentamos, assim, um fatalismo ineludível, certos de que somos o que somos porque, das duas uma, ou não temos coragem para sermos diferentes ou pesa sobre as nossas decisões a consciência da responsabilidade que devemos aos outros. Há uma terceira via, cruel e terrível, talvez mais verdadeira. Dentro de nós, a morte fala mais alto do que a vida, gerando no sangue o sentimento derrotista de que nada vale o nosso esforço.

FULIGEM

Em sábado de dolentes posturas, um vento remansado pelo calor empurra sobre o céu as nuvens que um gato tenta agarrar na terra − perseguindo sombras como quem abraça fantasmas no vazio. Explicam certos geólogos que muitos terramotos começam assim. Se o bater de asas de uma borboleta pode provocar um tufão no outro lado do mundo, porque razão não poderá um terramoto começar com um gato ferrando as unhas nas sombras de nuvens remansadas? Nas mãos do caos todas as explicações parecem plausíveis. Até o vento trazer-nos fragrâncias perdidas nos labirintos da memória, o paladar das fatias douradas numa tarde de Outono, o aroma da baunilha embrulhado numa embalagem de bombons italianos. Filmes franceses vistos apenas na treva do apartamento. Assim consumidos pelo afastamento da proximidade, podem povos inteiros desfazer-se em fuligem. Dias virão em que aceitaremos como válido o orgulho do ócio, acolheremos nas nossas casas o silêncio e agradeceremos à solidão a paciência ─ como gatos tentando agarrar na terra as sombras das nuvens remansadas.

O TRIUNFO DOS PORCOS

Camarada Van Zeller, não muito depois de termos ficado a saber que os deputados do PSD são os mais faltosos, eis que um governo laranja se prepara para combater a falta de assiduidade. Dos alunos, claro está, que a palavra dos deputados faz fé e a fazer fé na palavra dos deputados todas as faltas estão justificadíssimas por motivos de força maior.
Forças maiores não operam, porém, na vida dos fedelhos com inclinação para a greve. Vai daí, toca de engendrar medidas a favor da assiduidade. Como vivemos num país onde tudo o que é medida tem que arrastar uma sombra de tortura, o Ministério da Educação e Ciência achou por bem obrigar os faltosos a trabalhos a favor da comunidade, quais pequenos cadastrados reincidentes na má vida.
Os trabalhos a favor da comunidade, está mais que provado, têm vários méritos. Sobretudo junto de jovens desviados com preconceitos acerca dessa mesma comunidade. Têm o mérito, desde logo, de promover o trabalho, mormente o trabalho gracioso e solidário e compassivo. Ou seja, o mesmo tipo de conceito laboral que estes jovens irão encontrar quando procurarem penetrar no mercado de trabalho à séria.
Não satisfeito com a propaganda destes bons hábitos, prepara-se o Ministério da Educação para promover ainda uma forte censura social, cito, dos encarregados de educação dos alunos faltosos. Os maus pais de família serão alvo de merecidas sevícias, tais como reduções de apoio social à família (quais?) ou contra-ordenações. Ora aí está um bom pretexto para aplicar o mais apetecível dos castigos, a multa. O que seria de nós sem esta suprema figura do Direito?
Além de multas, poderão ainda os maus pais de família ficar sujeitos a programas de educação parental, administrados, desconfiamos, por padres e freiras, esses que sempre foram, neste país, quem melhor entendeu o conceito de família. Pelo menos à napolitana. Preparai-vos, pois, pais e mães de Portugal, trazei os vossos petizes pela trela se não pretendeis ver-vos achincalhados em plena praça pública pela comunidade de que fazeis parte integrante a bem ou a mal.
Aqui, como gostamos de ver o exemplo a ser dado pelos maiores, sugerimos que as mesmas regras sejam aplicadas aos senhores e às senhoras deputados e deputadas faltosos e faltosas. Poderão iniciar os bons serviços à comunidade já no próximo dia 16 de Junho, varrendo a porcaria que o megapiquenique do Continente deixará no Terreiro do Paço. É certo e sabido que porcos e couves foi coisa que nunca ali faltou, mas prevê-se que no próximo dia 16 aos porcos do costume venham a juntar-se suínos de quatro patas, desses para os quais, até ver, o Ministério da Educação e Ciência não ponderou nenhum programa de educação parental.

Sexta-feira, 1 de Junho de 2012

ÉRAMOS FELIZES E NÃO SABÍAMOS

Depois de se estrear no mais nobre dos géneros literários com Última Paragem, Massamá (2011), Pedro Vieira, que nada tem que ver com o homónimo autor de livros para transformar os desafios da vida em oportunidades de crescimento, aventura-se no reino da crónica. No entanto, estas crónicas têm uma particularidade: foram escritas para serem vistas e ouvidas. Acompanhadas pelos desenhos do autor, deram corpo à rubrica irmaolucia, exibida no Canal Q. São, por essa razão, textos contaminados pelas exigências da leitura em alta voz, o que pode produzir consequências desagradáveis em quem os pretenda ler, agora, no silêncio, no sossego e na paz de uma casa portuguesa. Na sua estrutura, apresentam defeitos porventura inultrapassáveis. Pedro Vieira usa e abusa de muletas da linguagem como «e por falar em» ou a interjeição «adiante», não resiste ao efeito coloquial de um «vá», repete várias vezes expressões irritantes como «aqui há atrasado». Uma outra fraqueza destes textos estará relacionada com o terem sido escritos para um hipotético público-alvo, o do programa onde eram lidos, o qual não terá de ser exactamente igual ao público do livro. Muitas piadas têm na sua raiz um lisboetismo não tão comum quanto possa julgar quem vive na capital. Nem toda a gente associa de imediato o Parque Eduardo VII à pedofilia, o Conde Redondo à prostituição ou a Costa de Caparica à imigração brasileira. Embora devesse, a bem da informação. Ainda assim, Éramos Felizes e Não Sabíamos é um bom cartão de visita para a silly season, a qual, em terras lusas, estende-se pelo ano inteiro teimando em não dar descanso a humoristas, cómicos, sátiros e histriões. A pena de Vieira encontra assunto com facilidade, o autor mostra-se atento aos boatos e às cenas mundanas, colecciona episódios caricatos da vida pública, gosta de disparar contra as forças do poder, sejam elas políticos ou a Santa Madre Igreja. Não sendo exactamente um cronista de costumes, desfaz mitos com uma ironia inteligente e afinada. Por vezes opta por um humor anedótico — «A notícia caiu com tal estrondo que até a Vénus de Milo bateu palmas» (p. 23) —, noutras ocasiões, muitas, inclina-se para a heterodoxia. Mas o humor de Pedro Vieira torna-se verdadeiramente interessante quando ousa pisar o risco do bom gosto e adopta uma postura corrosiva e negra. Leiam-se crónicas como Bom Rapaz, Sério, Trabalhador (sobre o famigerado homicídio de Carlos Castro) ou Bater Recordes (sobre violência doméstica) para percebermos que nem tudo aqui é leveza e galhofa. Ou ainda alguns momentos onde o facto abordado, por si só cómico, inspira aforismos de guerrilha que não desagradaria ver por aí espalhados em graffiti nas paredes de um Portugal emparedado. Bom exemplo é o remate da sátira intitulada Pentelhos: «Caros compatriotas, resta-nos uma de duas soluções: ou rapamos ou desinfectamos. Agora é escolher» (p. 91). Infelizmente, muitos compatriotas ainda não terão chegado a tão certeira conclusão, preferindo manter no poder as mesmas figuras que há décadas vão contribuindo para que os taxistas estejam cheios de razão. Não deixa de ser algo deprimente, pelas razões apontadas, terminar a leitura de um livro destes com a sensação de que andamos há demasiado tempo a coleccionar os mesmos cromos da mesma caderneta. Só um cenário tão pobre permite que em Novembro de 2011 alguém possa escrever uma crónica lembrando que «o cavaquismo não foi só o berço de homens impolutos como Duarte Lima, Dias Loureiro e Oliveira e Costa; foi também uma espécie de caldo de cultura muito favorável à actuação das polícias de choque e dos seus cães amestrados» (p. 139). Uma última nota: a deputada com penteado ao melhor estilo Vileda, eleita para Presidente da Assembleia da República, foi Assunção Esteves, e não Cristas, como se afirma a páginas 103. Basta olhar-lhes para a cabeça para percebermos a diferença. Ou talvez não.

PAPAGAIO JACÓ





No meio do vendaval de notícias relacionadas com a crise, com o FMI, com os juros da dívida e com a Irlanda que bebe latas de Guinness cada vez mais amarga, é gratificante encontrar algum alívio temático e espaço para o amor e para o absurdo (atenção, esta não é uma referência à Fátima Campos Ferreira). Por estes dias soube-se que a PSP de Mem Martins anda a angariar dinheiro para a compra de um papagaio que supere o vazio deixado pela morte de Jacó, ave que animou a esquadra durante 30 anos.
Repare-se, Jacó, figura de contornos bíblicos, neto de Abraão e patriarca de judeus e de um ou outro agente da linha de Sintra. Ao que parece, sempre que havia ocorrências Jacó assobiava e apitava, razão pela qual desconfio que o bicho terá morrido de esgotamento numa localidade que é mais ou menos inquieta. O
Público, jornal de referência que abordou esta problemática, apelidou o papagaio de «pequeno polícia», o que diz muito da actual imagem pública das forças da ordem.
Além de emblemático, Jacó era um bicho de humores vincados: se dormia bem, passava o dia bem-disposto. Se dormia mal, tratava toda a gente por «camarada», situação que prefigura um anticomunismo primário, como diria Bernardino, em Pyongyang vive-se a democracia Soares.
Para colmatar a falta deste papagaio de estimação, e porque comprar um Jacó júnior por 700 euros não chega, os agentes mandaram embalsamá-lo e fizeram-lhe um altar de homenagem com fotografias. Tudo isto, recorde-se, na zona de Algueirão Mem Martins, linha de Sintra, sobre a qual Paulo Portas só fala armado de escudo e viseira. Zona à qual associamos mais a palavra cavalo do que papagaio, tal é a quantidade de garrotes, colheres e limões cultivados na região.
Ainda a propósito do embalsamamento de Jacó, um dos responsáveis da esquadra diz que o vazio não se ultrapassa porque o papagaio empalhado, e passo a citar, não mexe nem fala. Viva La Palisse. Vivam os bófias com sentimentos. E os sketches dos Monty Python. Hello Polly. Poooolllllyyyyy. Polly Parrot
.


Pedro Vieira, in Éramos Felizes e Não Sabíamos – Crónica dos dias antes do fim, Quetzal, Abril de 2012, p. 141.

CONTO, MICROCONTO E NANOCONTO

No Jornal de Letras de 30 de Maio de 2012, Miguel Real escreve Conto, microconto e nanoconto, a propósito do livro Havia (Caminho), de Joana Bértholo. Deixo a primeira parte do artigo, intitulada Contextualização, por razões declaradamente narcísicas:


É muito difícil a escrita de contos. A arte do conto exige, da parte do escritor, uma grande mestria de concisão narrativa ou uma grande inocência. Existem bons e grandes contistas em Portugal, como é evidenciado pela publicação de três antologias: Os Melhores Contos Portugueses, vários volumes organizados por João Pedro de Andrade ao longo da década de 1950, Os Melhores Contos e Novelas Portugueses (2003), três volumes coordenados por Vasco Graça Moura, e Conto Português. Antologia Crítica (2009), dois volumes da responsabilidade de Maria Isabel Rocheta e Serafina Martins. Entre a multiplicidade de escritores que praticaram esta arte no século passado, não hesitamos em qualificar Miguel Torga, com Bichos (1940), Contos da Montanha (1941) e Novos Contos da Montanha (1944), como o melhor contista português do século XX. Em Torga, a arte do conto atinge o mais elevado nível estético em Portugal: a intensidade expressiva, a condensação temporal, a unidade espacial, a força rítmica e o efeito psicológico criado no leitor são trabalhados a um nível de alta perfeição, possuindo equivalente semelhante, ao nível da qualidade literária, nos quatro volumes das Crónicas de António Lobo Antunes.
Na década de 70, Mário Henrique Leiria subverteu a tradicional arte do conto português em
Contos do Gin-Tonic (1973) e Novos Contos do Gin-Tonic (1978), condensando a um nível mínimo de mancha de texto a arte do conto, acrescentando-lhe o elemento fortemente satírico, jocoso, sarcástico. Com ele nasce, em Portugal, o microconto ou a microficção. O que em Torga fora classicismo, é em Leiria subversão surrealista do sentido, desobediente a regras ou ditames tradicionais, prosseguindo, de certo modo, a exploração surrealista do texto levada a cabo por António Maria Lisboa.
Nos últimos anos do século passado e nos primeiros do nosso século, enquanto a prática do conto prosseguia gerando novos autores de qualidade (Mário de Carvalho, Luísa Costa Gomes, António Vieira, Maria Antonieta Preto…), o microconto (uma, duas, três páginas) e o nanoconto (três, quatro, cinco linhas, um parágrafo) irrompem de um modo brutal em Portugal, numa verdadeira explosão de autores, sobretudo de jovens autores, geograficamente dispersos, não possuindo ideologia estética comum.
Este movimento literário espontâneo encontra uma âncora estética comum (com exceções, sobretudo Adília Lopes) na dramaticidade expressiva do texto breve, na desvelação do sentido absurdo do mundo narrado através de um pequeno exemplo, uma espécie de pungência por que o autor, comovido, evidencia a adversidade geral da existência. Henrique Manuel Bento Fialho (
Estórias Domésticas, 2006; Estranhas Criaturas, 2009) é, talvez, o autor mais exemplificativo do estado actual desta vertente da microficção portuguesa.
E eis que, muito recentemente, Rui Manuel Amaral (
Caravana, 2008; Doutor Avalanche, 2010), Afonso Cruz (Enciclopédia da Estória Universal, Prémio Camillo Castelo Branco 2009) e Gonçalo M. Tavares (sobretudo em Canções Mexicanas, 2011) elevam o microconto e o nanoconto a verdadeira arte literária. Não se trata já da revelação ontológica do sentido do mundo, coberta pelo dramático testemunho pessoal do autor. Trata-se, antes, da libertação lúdica do texto, o texto como infinito campo de possibilidades (de que a exploração da dramaticidade pungente seria apenas uma das vertentes), uma construção sintática, fonética e semântica livre (na linha de Casimiro de Crito e Ana Hatherly), sem outras regras que a inteligibilidade da leitura, a criação do texto como jogo do mundo, explorando-lhe as inumeráveis relações, algumas das quais desprovidas de sentido.
O texto como “brincadeira” séria – muito séria – de adulto, que, no caso de Gonçalo M. Tavares e Afonso Cruz, acresce um cunho filosófico. Porém, primeiro, sempre, o trabalho textual, depois a filosofia.



Nota: não me parecendo incorrecta a leitura de Miguel Real, devo esclarecer que nunca considerei contos, microcontos ou nanocontos os textos coligidos nos livros Estórias Domésticas e Estranhas Criaturas. Esses textos, devedores de uma leitura pessoal do chamado poema em prosa, foram sempre por mim tratados como problemas, uma mistura de prosas com poemas. Os meus contos estão praticamente todos inéditos, por razões que o António Cabrita, sem querer, explica muito bem neste seu post. São excepção os nanocontos publicados na Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa (Exodus, 2008), que tive a honra de prefaciar e mereceu tradução para árabe por Said Benabdelouahed (Racines, 2010), uma singela participação na antologia brasileira Contos de Algibeira (Casa Verde, Porto Alegre, 2007), alguns microcontos aparecidos na revista Big Ode, nomeadamente a série Crónicas Europeias (Big Ode, n.º4, tema "Urbe", Março/Junho de 2008) e um conto na antologia luso-brasileira Um Rio de Contos (Tágide, 2009), organizada por Celina Veiga de Oliveira e Victor Oliveira Mateus.

Quinta-feira, 31 de Maio de 2012

JOVENS EMPREENDEDORES

Durante anos, foram-me falando de um tempo de gente sentenciada. A filho de pobre que pretendesse escapar à rudeza do campo, restava uma de duas soluções: ou ia para padre ou seguia a carreira militar. Como não sou filho de militares, muito menos de padres, aprendi a reconhecer o mérito do sofrimento imposto pelo trabalho das terras. Os meus pais cavaram, mas não se ficaram de enxada na mão. Como muitos, soaram as estopinhas por um negócio que lhes exigiu a vida inteira. Hoje o discurso é outro, as soluções padre ou sargento afunilaram no sentido de uma mesma constatação: jovem que tenha vontade de singrar, não terá hipótese alguma. É impossível, tendo o comércio sido asfixiado pelos galifões das grandes superfícies e pelos tiranos da fiscalidade. Um dia iremos acordar para o Inferno, e veremos como esses galifões andam a explorar não só quem empregam mas também quem os abastece. Dando cabo da economia com a mais estúpida da complacência generalizada. Mesmo assim, esperam os nossos políticos, completamente alheados da realidade sufocantemente burocrática por eles arquitectada, vivendo num mundo de gabinetes que é só deles e de mais ninguém, esperam esses promotores do optimismo aquilo a que chamam iniciativas e empreendedorismo, esperam mais produtividade, como se a produtividade se resolvesse com uns minutos de serviço grátis e menores remunerações mensais. Os trabalhadores permitem ser tratados de colaboradores e é no que dá. Por aqui, todos os dias me cruzo com vários jovens empreendedores. Ele é o arrumador de carros, de jornal enrolado na mão, apontando para os buracos que lhe garantirão, com boa vontade, uma moedita para a jola. Mais acima, junto ao cemitério, uma puta que mal se consegue distinguir de um cadáver ambulante. Ataca perto da mansão universal, porventura buscando nos mortos o conforto que não encontra nos vivos. E ainda há pouco, enquanto fumava o cigarrito da praxe, lá chegou outro jovem empreendedor aos cinzeiros do Centro Comercial. Vazou as beatas e escolheu, meticulosamente, com uma sabedoria economicista invejável, as que lhe poderão ser úteis em investimentos insondáveis. Três exemplos de jovens empreendedores, num só dia e numa pequena cidade, aos quais se chega facilmente: andando a pé pelas ruas, observando, abrindo os olhos. Tivessem ido para padres, ela para freira, e ainda chegariam a capitães. Ou mordomos, na pior das hipóteses.

OS MEUS WEBLOGS DE "A" A "Z" - N

A roleta é um jogo de sorte e se a sorte não obedece a estatísticas, o amor não segue a lógica.


A Namorada de Wittgenstein (azar ao jogo, sorte no amor)

QUATRO POEMAS




Fragmentos do Rogil : aqui. Para adquirir o livro é só escrever à volta d'mar (7€, portes incluídos).

Quarta-feira, 30 de Maio de 2012

OS TOMATES DO ROGIL

Nuno Dempster refere-se aqui aos tomates do Rogil, deixando-me em falha com uma revelação que irei satisfazer já de seguida. Tenho a sorte de ficar todos os anos numa casa rodeada de pequenas hortas, sendo frequentemente presenteado com o melhor que sai daquelas terras. Entre pepinos, melancias, amendoins, batatas, abóboras, feijão, meloas, alfaces… os tomates. Por vezes, eu próprio os colho e preparo. Depois de bem lavados, corto-os às rodelas e tempero-os com azeite e vinagre. Misturo-os com uma dose generosa de cebola e sal grosso, polvilhando no fim a salada com um pouco de orégãos. Cai bem com tudo, mas quase sempre grelhados. Peixe, carne ou um polvo apanhado quando a maré vaza e os deixa à mão de semear entre rochas de praias desertas (as mais bem frequentadas).

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #54





A primeira metade da década de 1990 presenteou-nos com dois universos, não necessariamente paralelos, no que à música popular diz respeito. De um lado, as guitarras eléctricas e o revivalismo punk dos Nirvana & Cª. Era preciso encontrar um nome para aquilo, chamou-se-lhe grunge. Do outro lado, as programações electrónicas, os samplers, as colagens, numa desconstrução inteligente do hip-hop. Chamou-se-lhe trip-hop, género que tanto podia agradar a urbano depressivos, nascidos e criados sob as nuvens cinzentas dos Joy Division, como aos mais conservadores adeptos das rimas. O trip-hop era ao mesmo tempo melancólico e revolucionário, inovava no uso das caixas de ritmos e na forma de construir canções a partir de colagens elípticas e estilhaçadas. Entre os nomes mais consistentes associáveis à seita, encontramos o de Tricky. Após breve colaboração com os Massive Attack, apareceu a solo, e com estrondo, no ano de 1995. Maxinquaye, o álbum de estreia, ficou para a história como um dos melhores momentos da música popular no final do séc. XX. No entanto, a prolixidade desta complicada alma criativa brindou-nos, logo de seguida, com um álbum-projecto-isolado intitulado Nearly God, em muitos aspectos superior a qualquer um dos registos em nome individual do artista. O álbum está recheado de colaborações sonantes, de Terry Hall a Björk, de Neneh Cherry a Alison Moyet. Álbum de demos, assim ficou conhecido, com uma porta aberta para um estranho, sedutor e ambíguo mundo. Uma teia de sons sobrepostos, ora cadenciados por um baixo dengoso, ora dirigidos por ritmos demorados. O primeiro tema é uma versão quase irreconhecível de Tattoo, dos Siouxsie & the Banshees. O último antecipa Yoga, de Björk. Entre o primeiro e o último, há vários momentos que permitem ligar as duas margens como se houvesse ali uma intenção deliberada de criar pontes e transpor barreiras. Em certo sentido, outra coisa não tem feito o génio criativo de Tricky.

OS MEUS WEBLOGS DE "A" A "Z" - M

Querido Franz, se fosse possível escolher entre nós e o mundo, na vida e não nas palavras... totalmente, até ao fundo. Enfim, se fosse possível separarmo-nos do mundo por um momento para decidir a perspectiva justa, ah... não conseguiríamos sequer mexer um pêlo, tolhidos pelo medo.

Malone meurt (diálogos improváveis sobre hipóteses plausíveis)

Terça-feira, 29 de Maio de 2012

THE TREE OF LIFE



Quando informam Pocahontas sobre a morte do Captain Smith, ela fica inconsolável e tem aquele gesto poderoso de se cobrir com cinzas. O mesmo fazem os amigos de Job ao saberem do seu desespero, atiram cinza por cima das cabeças. Este tomo do Antigo Testamento é a chave para a compreensão do filme The Tree of Life (2011). Ninguém compreenderá com substancialidade o quinto filme de Terrence Malick sem ter lido o livro de Job. De resto, não é por acaso que aparece em epígrafe. Uma família honesta na américa dos anos 50 vê-se atingida pela maior das desgraças, a perda de um filho. O infortúnio instala a dúvida, golpeia a fé, atira cinzas por cima da dor. Lembramo-nos de Santo Agostinho, da sua dor confessada perante a perda de um amigo. Mas é Job quem ecoa no coração das personagens, é a sua incompreensão do sofrimento e a sua vontade de questionar Deus sobre a justiça das suas opções.

Este é, também por isso, o mais ambicioso e porventura enigmático dos filmes de Malick. Nele voltamos a encontrar a cidade de Deus em oposição ao mundo natural, a graça e a natureza enquanto caminhos opostos que o cinema procurar conciliar. Nesse sentido, The Tree of Life é um filme de fé na linguagem cinematográfica enquanto veículo de aproximação ao divino. Os diálogos são mínimos, várias falas em off revelando pensamentos, confissões, dúvidas, inquietações, conjecturas acerca das direcções que apontam para Deus. Mas é este quem fala quando se recria a criação do Universo, a partir de pressupostos científicos que têm tanto de cosmológico como de teológico. Porque Deus mostra-se através da Natureza ou, como em Job, através das montanhas por si deslocadas, da terra estremecida, das constelações, do mar profundo, da abóbada celeste.

O que nos leva a Deus é, pois, a questão essencial do filme, explorada a partir de exemplos clássicos aqui possíveis de reconstruir com o recurso a uma montagem rigorosa e imagens de uma beleza inclassificável. Apercebemo-nos com facilidade, ao revermos os filmes de Terrence Malick, do percurso necessário para chegar a este ponto. Reparemos nos inúmeros planos filmados de baixo para cima, como que em busca de uma luz proveniente das moradas do divino. Os troncos das árvores, e a luz que rasga as copas lá no alto, as quedas de água, um ritmo que acompanha meditativamente a longitude dos tempos, atravessando épocas e penetrando o coração da vida. No fundo, o flashback neste filme não é um mero recurso narrativo como noutros filmes. Ele é a própria essência da história aqui contada, é pura ciência, como a árvore evocada por Job quando questiona a triste condição humana:

Uma árvore tem sempre esperança;
mesmo que a cortem, brota de novo
e não pára de produzir rebentos.

A família pode ser o microcosmo a partir do qual se representa o conflito eterno entre a graça de Mrs. O’Brien (Jessica Chastain) e a natureza de Mr. O’Brien (Brad Pitt). Deus e a Natureza estão em conflito no interior de um dos filhos, o jovem Steve (Tye Sheridan). Mas este conflito não é de resolução fácil, não tem nada de simplista, desloca-nos para as forças que sustêm o mundo, lhe dão fundamento e fazem de nós, homens, ínfimas partículas efémeras, aglomerados de células, no centro da vastidão universal. O que torna tudo mais aceitável, compreensível e até lógico é a percepção de que o sagrado se manifesta, precisamente, onde ao longo dos tempos nos ensinaram estar o Inferno: na Natureza. As cenas finais são redentoras, poéticas, supõem um encontro improvável entre mortos e vivos, novos e velhos, como que numa confluência de universos paralelos, num mesmo espaço apaziguador, numa praia atravessada pela brisa ligeira da única mentira que ainda vale a pena alimentar, a mentira do amor.

PLANET CIRCUS

Foram precisos setenta e uns trocos de anos para que os alemães conseguissem, finalmente, tomar a Rússia nas mãos. A proeza deve-se à Chanceler que, ainda há dias, andava por Mykonos a dançar kuduro em trajes menores. Agora, a todo poderosa patroa da Europa foi a uma aula de Geografia apontar Berlim no centro da Rússia. Quando lhe disseram que Berlim era mais abaixo, o espanto perante a proximidade das terras de Lev Nikolayevich Tolstoy, que infelizmente ficará de fora no próximo europeu, não disfarçou o evidente: a Rússia é dos alemães, tal como Portugal é dos angolanos. A muitos quilómetros de distância, o nosso Presidente não quis comentar as inconsistências noticiosas. Preferiu explicar aos australianos que para fazer um bom vinho é preciso um bom caralho. Prevê-se um incremento significativo na louçaria das Caldas. Para que o absurdo seja total, só falta saber se Relvas se demitirá antes de Fidel Castro bater a bota.

Segunda-feira, 28 de Maio de 2012

OS MEUS WEBLOGS DE "A" A "Z" - L

A minha única religião é a do girassol e, por isso mesmo, não medito dentro de casa.


Little Black Spot (amuletos anti-ruína)

PROMETO VOLTAR A ACORDAR PARA O PESADELO




Fragmentos do Rogil : aqui. Para adquirir o livro é só escrever à volta d'mar (7€, portes incluídos).

Domingo, 27 de Maio de 2012

OS MEUS WEBLOGS DE "A" A "Z" - J

Não se tente, porém, segurar o vento.



Jardim de Luz (bons conselhos)